domingo, 30 de novembro de 2025

quando a mentira viral ataca a Escola Pública

Quando um boato se transforma num discurso político, o problema já não é apenas a mentira, é o efeito que ela produz num país cada vez mais exposto às simplificações tóxicas do TikTok e outras plataformas ditas sociais.

Rita Matias divulgou um vídeo nas redes sociais em que afirma ter recebido, de um encarregado de educação, a informação de que a Escola Secundária Gil Vicente teria proibido que a “Associação de Estudantes organizasse uma festa de Natal” e que proibiria “qualquer referência à tradição cristã”.

No vídeo, caracterizou a alegada decisão como “um insulto para a nossa sociedade ocidental, para a forma como nos organizamos, para as nossas tradições, para a nossa história” e enquadrou o episódio num cenário mais amplo de “autofagia” cultural.

A deputada associou esse suposto caso a movimentos na Europa, referindo protestos na Alemanha e “atentados que tiram a vida a europeus”, usando essas referências difusas para sustentar a ideia de que “quem chega de fora não quer celebrar o Natal”.

Porém, a direção da Escola Secundária Gil Vicente, através de um comunicado assinado pela Diretora e pela Associação de Estudantes, desmentiu totalmente a história e garantiu que a informação difundida por Rita Matias “é falsa”. Não existiu qualquer proibição da festa de Natal, nem qualquer restrição a celebrações próprias da época.

A escola afirmou ainda que “mantém o compromisso com a seriedade e o respeito pela comunidade” e desejou “celebrações felizes, com Amor e Verdade”.

A imprensa e os meios de verificação classificaram a alegação como falsa: não existe qualquer evidência de que a escola tenha proibido uma festa ou referências ao Natal, nem que a Associação de Estudantes tenha alguma vez recebido uma ordem nesse sentido. O caso assenta numa denúncia não documentada de um encarregado de educação cujo nome, circunstâncias e alegados factos nunca foram tornados públicos.

A polémica insere-se, contudo, num contexto mais amplo de discursos políticos que procuram associar a diversidade cultural e religiosa a uma ameaça às tradições nacionais. Mais uma vez, a deputada utiliza um rumor, um "ouvi dizer", para pôr em causa a convivência democrática e a diversidade cultural do país, características históricas da sociedade portuguesa, não invenções recentes.

A condição de deputada confere-lhe um papel público com consequências, e não é irrelevante que, pela repetição de insinuações, polarize e alimente a desconfiança, com o único propósito de reforçar a influência política da sua organização partidária, instrumentalizando o medo identitário.

Há, neste caso e noutros, um problema de responsabilidade pública: quando uma figura eleita mobiliza a mentira como instrumento político, tal atuação deve ser escrutinada e pode, como já aconteceu, ser passível de queixa-crime.

Outra questão relevante é a credibilidade da própria autora das declarações. As alegações não passaram no crivo mínimo da verificação factual, e o que está em causa é a utilização frequente de narrativas com forte carga emocional, independentemente da verdade, que penetram com facilidade numa população que, durante anos, foi alvo de um processo de empobrecimento cívico, cultural e informacional.

Os mitos construídos sobre a mentira, sobretudo quando apelam a afetos, receios e símbolos identitários, exigem um escrutínio firme. E para que esse escrutínio seja possível, é necessário conhecimento. Não se deixem desarmar.


Escola Secundária Gil Vicente: um exemplo de boas práticas

Convém, por isso, recordar quem é realmente a Escola Secundária Gil Vicente — que tem sido notícia nos últimos anos pelas melhores razões.

Situada numa das zonas mais diversas de Lisboa, a escola acolhe alunos de mais de 60 nacionalidades, convivendo diariamente numa pluralidade linguística e cultural que, longe de ser um obstáculo, se constitui como uma riqueza. A direção e o corpo docente têm construído práticas consistentes de inclusão, como as turmas de Português Língua de Acolhimento, fundamentais para a integração de estudantes recém-chegados que ainda não dominam a língua.

A escola tornou-se também referência por projetos que articulam educação, comunidade e sustentabilidade. Um dos mais significativos foi a plantação de centenas de árvores e a criação de uma horta pedagógica, em parceria com associações locais, envolvendo jovens de várias origens e capacidades. Estes projetos transformam o espaço escolar: de recinto fechado para transmissões de conteúdos, num território comum, vivido, cuidado, cultivado.

Importa ainda destacar a abertura do espaço escolar à comunidade. A escola tem participado em iniciativas municipais que permitem a utilização dos recreios e espaços escolares como locais de encontro para crianças e famílias fora do horário letivo, reforçando a sua vocação de espaço público ao serviço da sociedade onde está inserida. 

Tudo isto demonstra que a Escola Gil Vicente é, na prática, um exemplo de convivência multicultural bem-sucedida, de inovação pedagógica, de responsabilidade cívica e de práticas interculturais.

Por isso mesmo, quando se mobiliza uma mentira para atacar esta escola, ataca-se também o valor mais profundo da educação pública: a capacidade de construir comunidade, de acolher a diversidade e de formar cidadãos livres.

Em Portugal a Gil Vicente é apenas um de muitos exemplos da Escola Pública de Qualidade e para todos.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 29 de novembro de 2025


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