segunda-feira, 22 de abril de 2013

O oceano que nos aparta


A recomendação ao Governo Regional, apresentada sob a forma de Projeto de Resolução, para a aquisição de um navio de transporte de passageiros, carga e veículos para ligar durante todo o ano as ilhas de Santa Maria e S. Miguel é mais uma daquelas propostas do PCP que, independentemente do destino que lhe foi dado, vai ser de certeza concretizada no futuro.
E vai sê-lo, mais cedo ou mais tarde, independentemente do Governo, das maiorias ou das ideologias que as conduzem, porque a proposta é uma evidência que resulta de uma necessidade sentida.
É evidente porque é inegável a importância estratégica do transporte marítimo na nossa Região. É evidente porque a proximidade e dimensão das ilhas de Santa Maria e São Miguel criam oportunidades que a Região não pode continuar a desbaratar.
Não haverá força política, organização ou cidadão que conheça minimamente os Açores, que possa, em consciência, negar que a ampliação da oferta de transportes marítimos é decisiva para o desenvolvimento regional. É minha convicção que a criação de uma ligação marítima regular, durante todo o ano, entre as ilhas de São Miguel e Santa Maria para transporte de passageiros, mercadoria e viaturas reúne, ainda que em surdina, um amplo consenso. Se, como julgo e ficou demonstrado durante a discussão da proposta, estamos de acordo em relação à necessidade, tal já não parece suceder em relação ao timing da criação desta ligação.
Alguns continuam a querer adiar o assunto mais um tempo enquanto voltam a estudar o óbvio, outros terão, eventualmente, diferentes prioridades para a criação de novas ligações e, outros hesitarão perante um investimento de algum vulto.
Sou um defensor do planeamento e, por conseguinte, defendo a necessidade de um Plano Integrado de Transportes – aéreos, marítimos e terrestres -, direi mesmo que é uma lacuna indesculpável da maioria que está há anos no poder e que, até agora, sempre preferiu ter “mão livre” para prometer ou realizar conforme as suas prioridades políticas.
Quando esse Plano chegar ao Parlamento regional, se ainda por lá estiver, terei toda a disponibilidade para o discutir e aprovar, desejo é que esse momento não seja remetido para as calendas e continue a ir de anúncio em anúncio, de promessa em promessa, de legislatura em legislatura.
Sendo favorável ao planeamento, como já afirmei, não considero, contudo, que essa seja uma razão suficiente para atrasar mais um projeto que é consensualmente reconhecido como essencial. Não discordo, pelo contrário apoio, a criação de um Plano Integrado de Transportes para a Região. Mas parece-me óbvio e incontestável que este consenso em torno da criação de uma ligação marítima entre as ilhas do Grupo Oriental terá forçosamente de estar contemplado nesse plano. Sendo assim não se percebe que a recomendação apresentada pelo PCP tenha sido reprovada. 
Planeie-se, estude-se, discuta-se, mas não atrasemos ainda mais o desenvolvimento das nossas ilhas. Este era o momento certo para uma decisão que colocasse em marcha o processo de aquisição de um navio para ligar as ilhas do Grupo Oriental, era o momento certo para que este projeto pudesse ser abrangido pelo próximo quadro comunitário de apoio, a possibilidade não se esgotou aqui mas, para quê perder mais tempo.
As virtualidades da proposta eram claras, o fomento de um mercado potencial na ordem de 140 mil pessoas, aproximando duas ilhas que sendo vizinhas têm estado distantes, teria óbvios resultados positivos em termos da criação de circuitos comerciais e turísticos, abrindo as portas para o estabelecimento de sinergias envolvendo os agentes económicos das duas ilhas. 
O desenvolvimento harmónico da Região tem de ser construído com nove unidades interligadas, acessíveis, unidas pela cultura e pela história, mas também por sólidas parcerias e circuitos trocas comerciais, com base no produzir local e consumir local, é justamente reforçando as ligações marítimas interilhas que construiremos uma Região coesa, multipolar, em vez da Região unipolar, concentrada e macrocéfala que temos tido nos últimos anos.
Ponta Delgada, 21 de Abril de 2013

Aníbal C. Pires, In Expresso das Nove, 22 de Abril de 2013, Ponta Delgada

Sem comentários: