quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Do culto da morte e do Halloween

Foto by Aníbal C. Pires
Os Celtas, os Maias, os Egípcios de entre outras civilizações, ergueram construções que hoje constituem grandes atrações turísticas que, estando diretamente relacionadas com o equinócio do Outono ou da Primavera, conforme o hemisfério. Estas construções têm em alguns dos casos relação com a morte ou as suas divindades e, naturalmente com os comummente designados cultos pagãos muitos deles relacionados com o calendário solar e os ciclos agrícolas. Outros povos, um pouco por todo o planeta, não tendo materializado os cultos e os ritos também desenvolveram construções sociais associadas ao culto da morte, como será o caso dos povos da África subsariana e da América do Norte. 
A vida além morte, ou algo semelhante a uma condição etérea, cedo incorporou o imaginário humano. As representações e construções socias mais ou menos elaboradas deram lugar a cultos e rituais humanos, mais ou menos organizados, mas todos eles associados ao respeito pelos mortos e, também, à ideia de que esses entes, em determinados momentos do ano regressavam aos lugares onde tinham vivido ou, mesmo, que nem sequer se chegaram a ausentar, convivem connosco, ainda que, numa outra dimensão.
As religiões monoteístas vieram introduzir alterações e combater os cultos pagãos à medida que foram colonizando e aculturando outros povos, contudo, e porque a própria sobrevivência e afirmação destas religiões estão diretamente relacionadas, não direi exclusivamente, mas profundamente, com ideia da vida além morte, também elas absorveram e, posteriormente, impuseram os seus próprios cultos e ritos. Veja-se no mundo católico o “Dia de Todos os Santos”, a 1 de Novembro, e o dia dos “Fiéis Defuntos”, a 2 de Novembro.
No Mundo português, continental, insular e mesmo em alguns dos territórios colonizados encontramos manifestações que os povos foram recriando, mesclando o pagão e o religioso. No interior e norte do Continente português, nos Açores e em Cabo Verde, nos meses que antecedem o dia dos “Fiéis Defuntos, encomendam-se as almas procurando, não só, dar-lhes o eterno descanso, mas também garantindo para si as benesses de entrada direta para o paraíso celestial. Chegado Novembro as casas abrem-se as mesas enchem-se de iguarias para que os mortos que nos venham visitar possam saciar a fome e partir em paz. Se a primeira tem um carácter mágico religioso, a segunda está diretamente ligada aos rituais pagãos que herdamos dos celtas e às oferendas a vizinhos e visitantes de ocasião.

Foto by Madalena Pires
Os tempos e as novas teologias encarregaram-se de transformar as genuínas manifestações populares que estiveram na origem do culto da morte e que, em minha opinião, se relacionam, por um lado com o ciclo anual da órbitra da Terra à volta do Sol e tudo o que daí decorre nos períodos de transformação da natureza, e, por outro lado na liturgia dos cultos que as religiões monoteístas introduziram nestes ancestrais ritos.
Os “Santoros” da Beira Baixa, ou o “Pão por Deus” dos Açores, cujos contornos decorrem mais dos rituais pagãos do que do culto religioso, embora a hierarquia católica não os podendo vencer se tenha associado a eles, têm sido progressivamente substituídos pelas festividades do Halloween.
A génese do Halloween é a mesma de outros ritos pagãos, ou seja, o culto da morte e o respeito pelos mortos. A sua adulteração, ou seja, a sua entrada no calendário comercial com tudo o que isso implica, de bom ou mau, fica a dever-se a uma teologia que cresceu, se expandiu e domina, A teologia do mercado.
Não fazendo parte da tradição portuguesa não compreendo que esta importação da cultura anglo-saxónica se tenha, nas Escolas, sobreposto à tradição nacional e aos seus regionalismos. É aceitável que os docentes de língua inglesa promovam esta celebração, faz parte do processo ensino aprendizagem da língua e da cultura dos povos anglo-saxónicos, já não é aceitável que seja feita de uma forma acrítica e secundarizando a nossa, ou outras culturas.
Menos aceitável é a submissão da Escola à teologia do mercado, ao consumismo, à uniformidade.
Santa Maria, (ilha do Sal, Cabo Verde), 01 de Novembro de 2016

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 03 de Novembro de 2016

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