quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ir Lá

Escrevo na bela Vila do Corvo onde me encontro para mais uma visita estatutária. Termino aqui um longo périplo de meses que me levou a percorrer este ano, uma vez mais, todas as ilhas dos Açores.
Foram centenas de reuniões com Câmaras, Juntas de Freguesia, associações, agricultores, ambientalistas, pescadores, empresários, sindicatos, serviços do estado e, incontáveis contactos, conversas, queixas, protestos, mas também, felizmente, elogios e incentivos que me motivam a continuar.
A mais rica experiência que tenho colhido no trabalho parlamentar é esta: Ir lá. Conhecer os sítios. Estar nos lugares. Ouvir as pessoas. Falar com elas. Sentir as suas vivências e problemas.
Oiço, vejo e sinto o esquecimento, o abandono, a marca do centralismo economicista que exclui grande parte do arquipélago dos circuitos do progresso e bem-estar. Vejo gente que produz riquezas preciosas apenas para as ver apodrecer no cais à espera de um navio que atrasa ou que não chega, ou no aeroporto à espera de um avião que afinal não tem espaço. Vejo o esbanjamento de tanta da nossa riqueza por falta de um sistema de transportes capaz.
Vejo o potencial produtivo deixado ao abandono, o desenvolvimento paralisado pelas prioridades erradas de uma política de vistas curtas que troca a riqueza real que sempre produzimos pela miragem falhada de uma economia de serviços que nada produz.
Vejo os jovens – tantos! – válidos, competentes e empenhados, que são forçados a deixar as ilhas que amam e as terras que os viram crescer por não encontrarem o emprego de que necessitam, nem as perspectivas de vida que almejam.
Vejo o desemprego que grassa, a pobreza e a exclusão a começarem a mostrar a escura face, em comunidades onde antes eram desconhecidas e onde os seus efeitos são bem mais traumáticos do que nos grandes centros anónimos.
Vejo o mundo rural desarticulado e abandonado, os fortes laços que uniam comunidades rompidos pela deserção e abandono, pela centralização de equipamentos, valências e investimentos nas vilas e cidades, como sempre pela ditadura do número frio, que destrói o nosso viver tradicional.
O meu trabalho como Deputado tem-me permitido ver tudo isto e, sobretudo, aprender com os açorianos de todas as ilhas quais os caminhos que precisamos de trilhar.
Lembrar os que foram esquecidos, dar voz aos que são silenciados, acordar os que se deixaram adormecer pela nevoenta política rosa, trazer para o centro os Açores que são deixados à margem, é o que me motiva. E é o que continuarei a fazer.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 4 de Agosto de 2010, Angra do Heroísmo

2 comentários:

Ana Loura disse...

Excelente texto, Camarada. Tão realista que parece ficção...

Beijo

Aníbal Pires disse...

Olá Camarada Ana Loura,

Bem vinda aos comentários do "momentos".
Embora parecendo ficção é realidade. Realidade só possível porque construída colectivamente.
Beijinhos e vai aparecendo por aqui