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Aníbal e Madalena Pires (Sal, Cabo Verde, Nov. 2016) |
Recebi os habituais telefonemas dos meus filhos e também trouxe à memória coletiva das comunidades virtuais a que pertenço um texto que escrevi sobre o meu Pai. O ritual foi cumprido e não fossem algumas manifestações públicas, também nas comunidades virtuais, com origem nas mulheres que, como sabemos, não deixam os seus créditos por mãos alheias e este seria apenas e mais um dia. Um dia igual a todos os outros em que os meus filhos me telefonam e eu presto o devido tributo aos meus progenitores honrando, a cada momento, a herança imaterial que me legaram.
Recebi de uma querida amiga a seguinte mensagem, “Hoje é o teu dia meu amigo! (Mas só porque existe uma mulher! Feliz Dia do Pai!”. Num espaço mais alargado podiam ler-se outras publicações como esta, “Bom dia do Pai às Mães porque há Mães que também fazem de Pais a vida inteira (Tristão de Andrade)”. Estas e outras publicações lembram por um lado, a indispensabilidade da mulher e, por outro lado o Pai ausente.
Quanto à indispensabilidade da mulher é assunto que não tem discussão, o mesmo já não podemos dizer do homem. O homem é (ou pode ser) dispensável. São os escritos sagrados que fazem a doutrina no mundo cristão que o sugerem ao aceitarem que Jesus foi concebido sem a intervenção do homem. José Saramago no “Memorial do Convento” aborda a questão da indispensabilidade da mulher desta forma, “(…) porque a outra, e tão falada, incorpórea fecundação, foi uma vez sem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres. (…)”. Estamos, pois, conversados sobre este assunto querida(s) amiga(s), só se comemora o dia do Pai porque existem mulheres. Mulheres que sendo Mães, quantas e quantas vezes fazem de Pai a vida inteira. Nunca tive ilusões sobre a importância do papel estruturante das mulheres nas sociedades, apesar da discriminação a que continuam a ser sujeitas.
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Aníbal, Amélia, Catarina, João e Madalena Pires (Lisboa, Janeiro de 2017) |
Não sendo uma questão exclusivamente portuguesa, em Portugal é, normalmente, o Pai que não está presente, não importam agora as razões. A ausência do Pai, coabite ou não com a família, confere uma importância acrescida, que não é de agora, é de sempre, ao papel social das mulheres enquanto depositárias de valores culturais da sua família e comunidade de pertença. São as mulheres os veículos da transmissão dos valores e da cultura do grupo familiar e comunitário.
Os homens são importantes, mas também neste caso dispensáveis, embora isso não seja, de todo, desejável para as crianças e jovens que, enquanto crescem e se estruturam, necessitam de dois referenciais para se individualizarem.
Ponta Delgada, 19 de Março de 2017
Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 20 de Março de 2017
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