quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

a véspera

foto de Aníbal C. Pires
Nos dias que antecedem a celebração do Natal e do Ano Novo ecoa um ritual de palavras que formulam votos de futuros melhores, promessas de harmonia e proclamações de paz no mundo. Como outros rituais, também este é cíclico: aos primeiros dias de janeiro, digamos depois da celebração do Dia de Reis, lá se vai o espírito da época. Quero crer que fica sempre uma réstia de esperança, mas começo a duvidar. Questiono-me se ainda sobejará algum alento após décadas e décadas de espera por uma mudança que nunca chega. Alterações tem-nas havido, e continuam a acontecer a ritmos alucinantes, mas não correspondem, de todo, aos desejos repetidamente formulados.

Esta talvez não seja a melhor abertura para um texto em véspera de Natal, nem garanto que, daqui para a frente, venha a conseguir apropriar-me do espírito da época. Não está fácil, mesmo com as decorações nos espaços públicos iluminados a anunciar uma qualquer boa nova num plano de compra a prestações, sem juros.

Não posso negar que a encenação da época natalícia traz consigo algo que conforta, que anima. Mas traz também algo de profundamente insuficiente perante a complexidade do tempo e do espaço que habitamos, algo que não se concilia com a leviandade rotineira dos votos formulados. Não quero ser injusto e abro uma exceção para quem, de forma genuína e com espírito solidário, celebra as festas de Natal, Ano Novo e Dia de Reis. Sei que assim é, e tenho por esses meus concidadãos o maior respeito.

Não é possível escapar aos apelos das Festas que se querem boas. Ninguém fica indiferente, e a celebração, do que quer que seja, acaba por se consumar. Para não perder tempo, já dei início ao ciclo de festividades assinalando o Solstício de Inverno, que no hemisfério Norte é ancestralmente saudado como o início de um novo ciclo natural.

foto de Aníbal C. Pires

A evocação do Solstício de Inverno não é um detalhe folclórico, nem um mero abrigo simbólico. Remete para uma noção de tempo que precede a retórica do progresso linear e das promessas adiadas. Os ciclos naturais ensinam que não há crescimento infinito, nem hegemonias eternas, nem luz sem atravessar a noite. A história humana, apesar de todas as tentativas de a domesticar, obedece à mesma lógica.

É precisamente numa fase de declínio de um ciclo que nos encontramos, ainda que isso seja sistematicamente negado. O mundo organizado em torno da supremacia ocidental, do domínio financeiro e militar dos Estados Unidos e da submissão política dos seus aliados europeus mostra sinais claros de desgaste, senão mesmo de rutura. Em vez de reconhecer esse esgotamento e procurar novas formas de cooperação, a resposta tem sido a radicalização do confronto.

A Palestina continua a ser palco da barbárie, nas Caraíbas, o reaparecimento de atos de pirataria no contexto do conflito entre os Estados Unidos e a Venezuela não é um anacronismo preocupante. É a prova de que o recurso à força, à intimidação e ao bloqueio económico continua a ser uma ferramenta central da política internacional, em particular da praticada pelos Estados Unidos. A linguagem muda, os métodos adaptam-se, mas a lógica colonial permanece.

Na União Europeia, a opção pela guerra deixou de ser tabu e é hoje assumida como caminho. Um caminho que se adivinha desastroso para a própria União. Depois dos 800 mil milhões destinados a alimentar a corrida armamentista, surge agora, face à ilegalidade que constituiria a utilização dos ativos russos, o financiamento da Ucrânia em dezenas de milhares de milhões de euros, apresentado sob a forma de um recente empréstimo. Como se não bastasse todo o financiamento anterior, com o destino que conhecemos, acrescenta-se mais este absurdo que compromete as gerações futuras. Tudo isto acontece sem debate público sério, sem referendo, sem verdadeiro escrutínio democrático. A economia de guerra instala-se como normalidade, enquanto se corta, se adia e se sacrifica tudo o que não contribua para esse esforço.

imagem retirada da internet
Na Europa, assiste-se assim a uma corrida armamentista apresentada como inevitável, quase natural. Em nome da segurança, aceita-se a lógica da guerra como horizonte permanente, enquanto se aprofunda uma subjugação estratégica e política aos ditames dos Estados Unidos. A ideia de soberania europeia dissolve-se entre alinhamentos automáticos e silêncios convenientes.

Em paralelo, os protestos dos agricultores europeus expõem a falência de um modelo que se diz sustentável, mas que destrói quem produz. Bruxelas, símbolo do poder tecnocrático, reage com surdez e cinismo. A agricultura é invocada nos discursos, mas abandonada na prática, vítima de políticas que favorecem grandes interesses económicos e mercados globais em detrimento da soberania alimentar e do bem-estar dos cidadãos.

Vivemos um momento histórico marcado por tensões que se normalizam. O recrudescimento de discursos e práticas fascizantes deixou de ser exceção para se tornar método. Aceita-se como uma necessidade o autoritarismo. Reabilitam-se símbolos e ideias que julgávamos enterradas. O medo volta a ser um instrumento político legítimo. A liberdade de expressão está cerceada. 

Em paralelo, a história é reescrita com mão pesada. Apagam-se responsabilidades, diluem-se crimes, relativizam-se violências. Culturas inteiras são empurradas para as margens ou diretamente silenciadas, como atualmente está a acontecer à cultura russa. Não é um processo novo, mas ganha hoje uma eficácia renovada através dos meios e das narrativas produzidas por uma União Europeia subserviente, repetidas com veemência por algumas famílias políticas até se tornarem, aos olhos dos cidadãos, aparentes verdades absolutas. É lamentável e constrangedor ver e ouvir deputados portugueses eleitos para o Parlamento Europeu a regurgitar o discurso do perigo russo e a defender o financiamento da guerra.

Enquanto isso, o eixo do mundo desloca-se. China, Rússia, Índia, Indonésia e outros países fora da órbita atlântica reforçam a sua autonomia económica, diversificam alianças e reduzem a dependência do dólar no comércio internacional. Não se trata de uma ameaça, mas de uma mudança estrutural que altera o equilíbrio global, mais que uma premonição é um facto. Ainda assim, esta realidade é sistematicamente desvalorizada ou ocultada no espaço público europeu, também com a cumplicidade de alguns parlamentares europeus eleitos pelos portugueses.

imagem retirada da internet

A maioria dos cidadãos da União Europeia permanece afastada destas discussões. Não por desinteresse, mas por efeito de uma máquina de propaganda que simplifica o mundo em blocos morais, reduz a complexidade a slogans e transforma qualquer dissidência ao pensamento único em suspeita. Pensar fora do guião eurocêntrico tornou-se um exercício desconfortável e, por vezes, perigoso.

Neste quadro, o Natal surge como uma suspensão artificial do tempo histórico. Um intervalo emocional que permite continuar sem questionar. Mas os ciclos não se interrompem por decreto, nem pela iluminação festiva. Tal como no Solstício, a escuridão não é um acidente: é parte do processo.


Reconhecer o fim de um ciclo não é ceder ao fatalismo. É, pelo contrário, condição para que algo diferente possa emergir. A recusa em ver, em nome do conforto ou da conveniência, apenas prolonga a noite. Talvez seja essa a verdadeira inquietação que esta época deveria provocar, em vez de votos leves e promessas recicladas.

É neste contexto que chega o Natal. Não como refúgio inocente, mas como interrogação. Que sentido têm as palavras de paz quando se investe na guerra? Que valor têm os apelos à tolerância quando se normaliza a exclusão? Que memória celebramos quando tantas outras são ativamente apagadas?

Se o Natal ainda pode significar algo, talvez seja isto: um momento de pausa crítica e de responsabilidade. Uma recusa da anestesia que nos é oferecida como conforto. Um compromisso ativo com a dignidade humana, para além das fronteiras, das narrativas oficiais e das conveniências do poder, mesmo quando esse compromisso tem custos.

Ponta Delgada, 23 de dezembro de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 24 de dezembro de 2025

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

das festas

imagem retirada da internet


Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) Não posso negar que a encenação da época natalícia traz consigo algo que conforta, que anima. Mas traz, também, algo de profundamente insuficiente perante a complexidade do tempo e do espaço que habitamos, algo que não se concilia com a leviandade rotineira dos votos formulados. Não quero ser injusto e abro uma exceção para quem, de forma genuína e com espírito solidário, celebra as festas de Natal, Ano Novo e Dia de Reis. Sei que assim é, e tenho por esses meus concidadãos o maior respeito.

Não é possível escapar aos apelos das Festas que se querem boas. Ninguém fica indiferente, e a celebração, do que quer que seja, acaba por se consumar. Para não perder tempo, já dei início ao ciclo de festividades assinalando o Solstício de Inverno que, no hemisfério Norte é ancestralmente saudado como o início de um novo ciclo natural.

A evocação do Solstício de Inverno não é um detalhe folclórico, nem um mero abrigo simbólico. Remete para uma noção de tempo que precede a retórica do progresso linear e das promessas adiadas. Os ciclos naturais ensinam que não há crescimento infinito, nem hegemonias eternas, nem luz sem atravessar a noite. A história humana, apesar de todas as tentativas de a domesticar, obedece à mesma lógica. (...)


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

rodriguinhos

A Greve Geral do passado dia 11 deu origem a inúmeros artigos de opinião. Não os li todos. Uns apoiaram-na, outros rejeitaram-na e outros ainda recorreram a lugares-comuns e artifícios retóricos, os habituais rodriguinhos.

Li alguns desses textos e houve um, em particular, motivou-me a escrever esta apreciação. O artigo terminava com uma frase moralizante que pouco ou nada tinha a ver com o seu próprio conteúdo: “Assim se faça política séria.” A frase, pelo seu tom e pretensão, exige resposta.

O texto em causa é, naturalmente, um artigo de opinião, coisa a que todos temos direito. A liberdade de expressão encontra-se consagrada de forma clara no n.º 2 do artigo 37.º da Constituição da República Portuguesa. Mas convém não esquecer o essencial: a liberdade de expressão não imuniza a opinião ao escrutínio público, sobretudo quando ela se constrói sobre afirmações factualmente falsas ou leituras abusivas da realidade social e constitucional.

O autor tem todo o direito a exprimir-se livremente. O que não tem é o direito de o fazer com leviandade, falta de rigor e deturpação de factos, ainda para mais num órgão da imprensa regional, como sucedeu na edição do AO de 15 de dezembro p.p. Não me proponho desconstruir integralmente o texto, tarefa tão longa quanto inútil, mas apenas corrigir algumas afirmações centrais que não correspondem à verdade.

Logo após considerações vagas sobre um país de “faz de conta” e um alegado “malcheiroso direito constitucional”, o autor escreve: “A CGTP não faz greves para obter nada, pois nunca assinou qualquer acordo com o governo ou com a concertação social, logo a razão é outra.”

Nesta curta frase concentram-se duas inverdades factuais.

A CGTP-IN, fundada a 1 de outubro de 1970, ainda antes da Revolução de Abril e, note-se, antes mesmo dos partidos que o autor integra no chamado “arco do poder”, tem uma história longa, complexa e documentada. Pode e deve ser criticada, como qualquer organização humana e histórica. O que não pode é ser caricaturada.

Reduzir a CGTP, como faz o autor, a um estorvo ideológico ou a um entrave ao progresso é algo que é, simultaneamente:

i) historicamente falso;

ii) constitucionalmente ignorante;

iii) eticamente pobre.

Os direitos laborais em Portugal não caíram do céu, do céu cai apenas a chuva, nem resultaram da benevolência do mercado. Foram conquistados pelos trabalhadores organizados, através da luta sindical e da ação coletiva. A CGTP não ganhou tudo, é certo, mas ganhou muito. Um exemplo basta: a consagração da semana de 40 horas e 2 dias de descanso semanal no setor privado, em 1996.

O autor poderia ter sustentado que a CGTP não privilegia a concertação social como via principal de ação. Essa seria uma opinião legítima. Optou, porém, por afirmar que a CGTP nunca assinou acordos, o que é falso. Existem acordos assinados, públicos e registados - pelo menos quatro - o que invalida por completo a afirmação feita.

Quanto à alegada ligação orgânica entre a CGTP e o PCP, o próprio texto se perde em contradições e confusões, não merecendo mais do que esta nota. Já a referência à UGT e à suposta “armadilha” em que teria caído limita-se a reproduzir chavões recorrentes do discurso neoliberal. Importaria, aliás, recordar que dirigentes da UGT, pertencentes aos TSD, votaram favoravelmente a adesão à greve, um facto que o autor convenientemente ignora.

As restantes partes do artigo seguem o mesmo padrão argumentativo: afirmações não sustentadas, generalizações apressadas e ausência de rigor analítico. Prolongar a análise seria dar importância ao que dela não carece.

Para terminar, devolvo ao autor a sua própria frase, agora com sentido:

Assim se faça opinião séria.


Aníbal C. Pires, 16 de dezembro de 2025


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Espelhos da (des)humanidade

imagem retirada da internet

O Mediterrâneo é, sempre foi, mais do que um mar. Este espaço marítimo foi berço de civilizações, comércio, guerra, encontro e fuga. Hoje, tornou-se numa ferida exposta no mundo ocidental. Nele convergem os escombros das guerras, o rasto das ditaduras, a pobreza gerada por décadas de saque económico e a violência das políticas externas ocidentais. É o mar onde naufraga diariamente uma certa ideia de Europa que se proclama guardiã dos direitos humanos, mas ergue muros, patrulha fronteiras, financia milícias e assiste, não como um cúmplice em silêncio, mas como mandante ativo, à morte de milhares de migrantes que tentam apenas sobreviver ao caos herdado do colonialismo e aos efeitos do neocolonialismo.

O Mediterrâneo é a metáfora perfeita da hipocrisia europeia: chama “crise” ao que ela própria produz e alimenta, chama “ameaça” aos que fogem das ameaças que semeou, chama “choque civilizacional” àquilo que é, na essência, um encontro desigual entre mundos violentados e um projeto de bem-estar construído sobre séculos de um colonialismo que teima em persistir sob formas de dependência neocolonial.

Um outro mar, o Atlântico, mais vasto e aparentemente mais pacífico, mas não menos gerador de conflitualidades, ou pelo menos de instrumento para alimentar projetos políticos e bélicos de um domínio hegemónico em ruínas. Foi no Atlântico que Portugal se habituou a ver a sua projeção marítima, ora como ponte, ora como eco de interesses que não são verdadeiramente seus. O Atlântico é a rota estratégica dos cabos submarinos, do tráfego energético, do posicionamento militar estado-unidense, das rotas comerciais que unem continentes e da crescente militarização que visa a defesa de projetos imperiais pouco recomendáveis e aos quais urge por termo, o espetro de uma guerra generalizada está desenhado, saibamos utilizar a diplomacia como instrumento nas relações internacionais e abandone-se, de uma vez por todas, a guerra. 

foto de Aníbal C. Pires
É nesse Atlântico que se situam as ilhas açorianas. O arquipélago é o ponto estratégico no xadrez geopolítico sobre o qual Portugal tem cada vez menos soberania. A base das Lajes, o posicionamento no Atlântico médio, os corredores militares e tecnológicos, tudo isso faz dos Açores um centro instrumental para Washington e Bruxelas, mas continua a ser uma periferia para Lisboa. A capital raramente percebe a dimensão do que tem entre mãos ou, se percebe, não tem sabido potenciar este ativo. Não como plataforma para a guerra, mas como suporte para a paz e cooperação e um ponto de encontro entre mundos. 

Portugal encontra-se entre estes dois mares, não só geográfica, mas histórica e politicamente.

Essa condição poderia ser potenciada, mas tem sido depreciada. Poderia ser ponte, mas tem sido, apenas, um posto avançado de interesses externos que o usam e descartam, consoante os contextos políticos e os proveitos para os poderes que alimentam a hegemonia ocidental.

Portugal nunca soube aproveitar este seu ativo natural e continua a ser mero espetador. Não pense o leitor que existe aqui algum saudosismo do colonialismo e do imperialismo português, nem se pense, ainda que por um instante, que defendo uma posição portuguesa mais interventiva no apoio a ações políticas de carácter bélico dos Estados Unidos e da OTAN, nada disso. A posição geográfica dos Açores, a meio caminho, entre o continente europeu e americano (Sul e Norte), a Macaronésia, mas também o continente africano, ou seja toda a bacia atlântica, conferem ao arquipélago uma centralidade que importaria valorizar. Mas o país insiste em posicionar-se como “aluno aplicado” da estratégia atlantista, no mau sentido da palavra, mesmo quando essa estratégia reforça desigualdades, alimenta conflitos e normaliza a guerra.

Veja-se como a pena corre, quando a deixamos ir sem controle para assuntos complexos, quiçá interessantes, mas que não faziam parte do meu propósito. Quando me sentei trazia comigo a ideia de abordar uma das condições humanas do nosso tempo: as migrações. Estou a meio caminho do fim do texto e ainda ando à deriva entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Se bem que estes dois mares serviram e servem para a deslocação de pessoas, uns compulsivamente, outros por vontade própria, mas sempre em resultado da violência e de sistemas políticos e económicos predatórios. Foi assim com a escravatura, é-o agora com a guerra, com a pobreza e com o esgotamento das economias locais, entendidas aqui como regiões onde por diferentes motivos a fome e a negação de uma vida digna impelem cidadãos para percursos migratórios nos quais não há nenhum romantismo, apenas desespero. A maioria não são nómadas digitais, nem têm vistos gold.

imagem retirada da internet

Ao contrário do que tantas narrativas oficiais tendem a caraterizar, migrar não é escolha, migrar é uma fuga à morte. E não é uma sentença natural, inscrita no destino, mas fabricada por um sistema económico global que transforma regiões inteiras em zonas de extração, dependência e desespero. A Europa e os Estados Unidos, tão rápidos a proclamar valores e direitos, são igualmente rápidos a negar qualquer ligação entre o seu bem-estar e o sofrimento alheio. Fingem não perceber que cada barco que atravessa o Mediterrâneo com destino á costa europeia transporta, além de vidas, um inventário de responsabilidades históricas. Cada pessoa que atravessa a fronteira mexicana leva consigo as marcas de décadas de ingerência económica, militar e política.

O que impressiona não é apenas a dureza das trajetórias migratórias, mas a brutalidade crescente com que o Ocidente decide “defender-se” daqueles a quem chama ameaça. A Europa transformou as suas fronteiras em laboratórios de desumanização: centros de detenção, arame farpado, tecnologia de vigilância, drones, acordos com Estados-fantasma convertidos em canis humanos. A retórica política, ora sussurrada, ora gritada, tenta convencer-nos de que esta violência é necessária para preservar o nosso modo de vida. Mas ninguém diz, pelo menos com honestidade, que esse modo de vida é insustentável sem a destruição sistemática das economias do Sul global e sem a exploração barata, invisível e descartável de imigrantes que, uma vez cá dentro, são úteis, mas nunca bem-vindos.

Os Estados Unidos, que durante décadas se apresentaram como “nação de imigrantes”, fazem hoje da fronteira sul uma zona militarizada onde se testam tecnologias de exclusão dignas de ficção distópica. Muralhas, sensores térmicos, vigilância permanente, milícias privadas, a fronteira mexicana tornou-se palco de uma guerra não declarada contra civis desarmados. E, tal como na Europa, a violência é legitimada por discursos que classificam os migrantes como invasores, criminosos ou, uma ameaça cultural. 

imagem retirada da internet
O que me inquieta não é apenas a violência visível nas fronteiras, mas a perseguição crescente dentro dos próprios países de acolhimento. Na Europa multiplicam-se as leis que restringem direitos, as campanhas mediáticas que diabolizam comunidades inteiras, as agressões que passam impunes, os partidos que ascendem ao poder prometendo “limpar”, “repatriar”, “proteger” quem é “de cá”. Nos Estados Unidos, o clima é semelhante: criminalização, deportações massivas, exploração do trabalho, comunidades inteiras a viver na sombra, sem direitos ou voz. A xenofobia e o racismo, que se escondia sob capuzes, hoje desfila à luz do dia com uma arrogância triunfal.

Mas se observarmos com atenção, veremos que esta violência dirigida aos migrantes tem uma função precisa: desviar o olhar. A imagem do migrante é construída como sendo o inimigo externo para ocultar o verdadeiro inimigo interno, o modelo económico que precariza, empobrece e abandona a maioria da população. É mais fácil culpar quem chega do que enfrentar quem detém o poder. É mais fácil construir muros do que questionar o porquê de tantas pessoas quererem atravessá-los.

Talvez falte ainda a consciência plena de que o Mediterrâneo e o Atlântico não são apenas geografias: são espelhos onde nos vemos, ou deveríamos ver. São mares que transportam histórias que também são nossas. 

O que está em causa, no fundo, não são as migrações, mas a humanidade. E talvez seja esse o futuro que ainda nos resta: escolher entre a barbárie das fronteiras e a humanidade das pontes.

Ponta Delgada, 9 de dezembro de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de dezembro de 2025

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

à deriva

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Veja-se como a pena corre, quando a deixamos ir sem controle para assuntos complexos, quiçá interessantes, mas que não faziam parte do meu propósito. Quando me sentei trazia comigo a ideia de abordar uma das condições humanas do nosso tempo: as migrações. Estou a meio caminho do fim do texto e ainda ando à deriva entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Se bem que estes dois mares serviram e servem para a deslocação de pessoas, uns compulsivamente, outros por vontade própria, mas sempre em resultado da violência e de sistemas políticos e económicos predatórios. Foi assim com a escravatura, é-o agora com a guerra, com a pobreza e com o esgotamento das economias locais, entendidas aqui como regiões onde por diferentes motivos a fome e a negação de uma vida digna impelem cidadãos para percursos migratórios nos quais não há nenhum romantismo, apenas desespero. A maioria não são nómadas digitais, nem têm vistos gold.

Ao contrário do que tantas narrativas oficiais tendem a caraterizar, migrar não é escolha, migrar é uma fuga à morte. E não é uma sentença natural, inscrita no destino, mas fabricada por um sistema económico global que transforma regiões inteiras em zonas de extração, dependência e desespero. A Europa e os Estados Unidos, tão rápidos a proclamar valores e direitos, são igualmente rápidos a negar qualquer ligação entre o seu bem-estar e o sofrimento alheio. Fingem não perceber que cada barco que atravessa o Mediterrâneo com destino á costa europeia transporta, além de vidas, um inventário de responsabilidades históricas. Cada pessoa que atravessa a fronteira mexicana leva consigo as marcas de décadas de ingerência económica, militar e política. (...)


sobre a imprescindibilidade do "bom" trabalhador

Li, há pouco, numa publicação no Facebook, um trabalhador que exprimia assim o seu posicionamento face às propostas de alteração ao Código de Trabalho, vulgo Pacote Laboral. Dizia então o trabalhador: “Um bom trabalhador não tem medo da reforma laboral!!!”

Pode também ser entendida como a autojustificação para não ter feito greve, mas é mais do que isso.

Esta afirmação denota uma ideia de imprescindibilidade, ou seja, isto nunca se vai aplicar a mim, pois o empregador e a empresa necessitam do meu trabalho e eu tenho um desempenho laboral reconhecido.

Esta ideia de imprescindibilidade alimenta-se, paradoxalmente, da própria lógica patronal que, enquanto valoriza essa dedicação, usa-a para quebrar a solidariedade coletiva, ou seja, a única força real que os trabalhadores têm quando enfrentam alterações profundas nas regras do jogo, como as constantes neste Pacote Laboral.

É importante que tenhamos consciência de que ser imprescindível não é uma qualidade individual, mas uma ilusão construída sobre a atomização do trabalho. Quando um trabalhador se julga acima da luta comum, esquece que os direitos que hoje considera adquiridos como sejam férias, horário de trabalho, proteção social ou a contratação coletiva, entre outros direitos; não nasceram do mérito individual, mas da união e da luta de muitos que, ousaram fazer greve, manifestar-se, exigir respeito, exigir dignidade. 

A greve revela, com a nitidez de um espelho, que ninguém é essencial sozinho, mas todos se tornam essenciais quando agem em conjunto.

Os trabalhadores, os que têm consciência de classe, estão de greve.

Os que se julgam imprescindíveis e interiorizaram que são colaboradores ao invés de trabalhadores e, por esse motivo, não fizeram greve. Serão vítimas da voragem neoliberal e, sobretudo, dispensáveis se o Pacote Laboral não for derrotado, tal como todos os outros. 

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 11 de dezembro de 2025


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

a retórica de Raquel Varela

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Há figuras, na paisagem política portuguesa, que procuram ocupar um espaço de rutura com aquilo que, muitas vezes abusivamente, se designa por esquerda. Alguns fazem-no pela radicalidade do gesto, outros pela força da indignação, outros ainda pela necessidade de aparecer onde a esquerda institucional parece oscilar, outros por razões que a razão desconhece, mas que se adivinha, e, Raquel Varela é um desses casos singulares. 


Raquel Varela é uma académica de mérito reconhecido, com presença mediática constante, até há algum tempo. Esta personalidade constrói um discurso que, aparentemente, se apresenta como diferente de tudo o que existe, e que, por isso mesmo, reclama para si a autenticidade que faltaria aos demais, embora, sem grande esforço de memória, encontremos paralelismos entre Raquel Varela e o discurso de afirmação alternativa de formações partidárias da chamada esquerda que pouco, ou nada, vieram acrescentar à luta por transformações com impacto na vida do povo e dos trabalhadores portugueses.

A sua crítica ao PS, ao BE, ao Livre e ao PCP, na sequência do debate entre António Filipe e Gouveia e Melo, parte do seguinte pressuposto: 

- a esquerda portuguesa teria abandonado o horizonte transformador, acomodando-se ao Estado, ao compromisso europeu e aos limites do possível. Não está totalmente errada nessa constatação, pois o PS há muito se converteu à terceira via e o BE assumiu-se como social-democrata civilizacional, mas o que Raquel Varela propõe em alternativa não é uma renovação do pensamento de esquerda, é um regresso a um passado distante, ao contexto histórico e ao que se lhe seguiu.
Para Raquel Varela a história parece existir apenas como argumento moral, por outro lado esta sua crítica não assenta bem ao PCP, embora tenha sido este o Partido que foi alvo no texto que publicou a propósito de um debate sobre as presidenciais entre Gouveia e Melo e António Filipe.

A retórica eco socialista que reivindica, seja lá isso o que for, procura mais distinguir do que construir. E é nessa distinção, muitas vezes feita pela negativa, que se esboça algo que se assemelha a uma nova força política partidária. Não organizada, não formalizada, mas insinuada. A génese das formações partidárias, afinal, começa quase sempre assim: primeiro a narrativa, depois o sujeito que a criou. E não seria a primeira vez que a política portuguesa assistia a isto.

O texto que publicou sobre o debate presidencial confirma essa deriva. Em vez de análise, temos acusação. Em vez de crítica, um moralismo inflamado que rejeita tudo o que não se alinhe com um internacionalismo revolucionário de início do século XX, como se a realidade geopolítica do nosso tempo não fosse incomparavelmente mais complexa do que a Europa de 1915, ou seja, o que foi acordado na pequena vila suíça de Zimmerwald terá sido o mais adequado para o contexto da época, mas os contextos alteram-se e com eles as estratégias e os instrumentos.

Para Raquel Varela, O “Estado”, esse monstro que ela descreve, é sempre instrumento da dominação, nunca da coesão, nunca da proteção, nunca da soberania democrática. É uma leitura que pode seduzir pela forma, mas falha pela ausência de mundo. Eu também sou utópico, mas um passo de cada vez é o mais avisado.

Quando afirma desejar “a derrota da nossa nação pela vida do nosso povo”, a frase brilha enquanto retórica, mas treme enquanto política. A nação não é apenas uma invenção da burguesia, e mesmo que o tenha sido, a nação é também o lugar concreto onde se disputa trabalho, direitos, igualdade, recursos, futuro. A sua dissolução não liberta os trabalhadores, entrega-os a poderes mais opacos, menos controláveis, mais brutais.

imagem retirada da internet
O PCP, que surge como alvo preferencial, não é apenas criticado a autora parece interessada em lhe retirar legitimidade. Tudo o que nele não corresponde ao modelo revolucionário pré estalinista é visto como desvio, rendição, cedência. Mas a história, da resistência antifascista ao papel social que desempenhou durante décadas, não cabe em duas linhas altivas de reprovação. E António Filipe, que não está acima da crítica, tampouco merece ser tratado como cúmplice de um militarismo que não partilha. António Filipe é um defensor da paz, mas a Raquel Varela necessitava de uma (auto)justificação, ninguém lha pediu, mas serviu-lhe para anunciar que não votaria em António Filipe.

É verdade que a esquerda portuguesa vive um tempo de esvaziamento eleitoral, mas não será com contributos como o da Raquel Varela que se conseguirá que a esquerda tenha a expressão eleitoral que já teve, influência social nunca a deixou de ter.

Raquel Varela fala e escreve com força, mas essa força corre o risco de se transformar apenas em gesto. E o gesto, sem enraizamento, sem programa, sem construção coletiva, não passa de impulso, um impulso com propósito, neste caso o propósito foi tentar descredibilizar o candidato António Filipe que apenas se referiu ao texto constitucional quando falou sobre defesa nacional. A este propósito, também os tenho, gostaria de saber o que pensa Raquel Varela sobre a luta do povo palestiniano na defesa da sua pátria.

A verdadeira alternativa à esquerda não se fará contra o Estado ou contra a nação, mas através deles.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 3 de dezembro de 2025


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Malak Mattar - a abrir dezembro

imagem retirada da internet

Malak Mattar, pintora palestiniana nascida em Gaza, transformou a sua arte num lugar de respiração num território onde o ar é constantemente roubado. A cada tela, a cada figura feminina que emerge com olhos grandes e luminosos, ela celebra a vida apesar do cerco, da ocupação colonial e do apartheid. O seu trabalho é um gesto de afirmação num mundo que insiste em negar a existência do seu povo. Na sua obra a resistência é tornada cor e os silêncios em gritos de denúncia. Nas suas pinturas há uma espécie de permanência obstinada, prova de que a identidade palestiniana não se apaga e que a vontade de um povo não se extingue nas ruínas da sua cidade natal.



As mulheres palestinianas sempre estiveram no centro desta resistência, não apenas como vítimas da violência colonial, mas como agentes da sua própria história. Elas sustentam comunidades, protegem memórias, educam os filhos para reconhecerem a injustiça e levantarem a cabeça. São presença nos protestos, nas cozinhas, nos hospitais de campanha, nas escolas improvisadas, nas casas que renascem após cada bombardeamento. Malak Mattar representa-as: firmes, dignas, inteiras, mesmo quando o mundo as quer quebradas.

a colheita da azeitona - Malak Mattar

E talvez seja esta a força maior da sua obra, ou seja, mostrar que, na Palestina, a cultura é mais do que herança, é continuidade. As mulheres transmitem canções, sabores, gestos, histórias de raízes profundas, projetam no futuro aquilo que a ocupação tenta arrancar ao presente. A pintura de Malak Mattar prolonga esse fio antigo, levando-o para além das fronteiras impostas, declarando ao mundo que a identidade palestiniana resiste porque vive, e vive porque é passada de mão em mão, de mãe para filha. Na obra de Malak Mattar, a arte torna-se o gesto que preserva a herança cultural e, ao mesmo tempo, afirma a luta contra a ocupação colonial e o genocídio.