segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Promessa cumprida, pelo menos tentada


Estava prometido!
Aconteceu hoje, vésperas de viajar até ao Pico pois tive receio que a majestática montanha me embargasse as palavras.
Peço aos picarotos que me desculpem a ousadia mas trata-se de cumprir uma promessa.

Ilha Maior
Ilha de néctares,
Pedras negras e
Vinhedos a sazonar nos currais

Ilha de navegadores
Genuínos,
De Cardeais da literatura e da fé
De homens: agricultores, baleeiros e
Construtores de letras imperecíveis
Como a lava que os pariu

Ilha de gestas historiadas
No recato da Calheta de Nesquim
Remanso inspirador
Na toada do mar e da terra
Melopeia que só os ilhéus alcançam
Num foro ímpar da telúrica natureza

Ilha do Cais da saudade,
De partida e de chegada
De um povo moldado
No sonho de partir
Querendo ficar
No resguardo da Montanha
Sensual e maternal
Majestosa
Presente em cada rincão da ilha
Ao alcance de um olhar

Ilha majestosa e presente
Para os que ficaram
Ilha majestosa e presente
Nos que procuraram o sonho
Para lá do horizonte

Ilha de mistérios
Ilha Maior

domingo, 29 de novembro de 2009

Marafona

As “marafonas” de Monsanto são bonecas de trapos com uma estrutura feita com dois paus unidos em cruz.Nasceram, como muitos outros usos, costumes e objectos simbólicos, da tradição pagã.
As “marafonas” são usadas, pelas raparigas em idade casadoura, na Festa do Castelo (ou das cruzes), que se realizava no dia 3 de Maio de cada ano e que actualmente é transferida para o Domingo seguinte quando não se dá a feliz coincidência.
Depois da festa a “marafona” é colocada na cama pois, reza a lenda, que afugenta as trovoadas.
No dia do casamento é colocada por debaixo da cama por estar associada à felicidade e fertilidade.
A “marafona” das imagens continua cá por casa, não debaixo da cama mas ainda no espaço do quarto comum.

Arianna Savall e Pedro Estevan

Fui rebuscar uns temas musicais que há muito não ouvia.
Um deles de Pedro Estevan, "El aroma del tiempo". Na procura de um dos temas deste trabalho de Esteban encontrei este outro, que não conhecia e que aqui partilho convosco nesta tarde de Domingo dada à tranquilidade e à reflexão.

Intenções para 2010

O Plano e o Orçamento de 2009 foram concebidos para fazer face à crise internacional e aos efeitos que, muito antes de serem assumidos pelo Governo Regional, os trabalhadores, as famílias e as empresas já de há muito sentiam e sofriam.
Passado que é cerca de um ano as medidas de conjuntura adoptadas pelo governo de Carlos César vieram a verificar-se ineficazes pela insuficiência e unilateralidade.
Faltaram as acções concretas para proteger a pressão que a crise colocava e coloca sobre os rendimentos e sobre os direitos dos trabalhadores açorianos, faltaram os investimentos nos sectores produtivos, faltaram e continuam a faltar as medidas estruturais que, a par das medidas de conjuntura possam, senão eliminar, pelo menos minimizar os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional.
Na era da globalização é tempo da economia regional ultrapassar o seu carácter periférico e de forte dependência externa e a opção para a sua superação não é, seguramente, a aplicação linear de modelos de mercados de escala e de competitividade indiferenciada.
O desenvolvimento regional terá de se ancorar na afirmação da singularidade e qualidade dos produtos, bens e serviços aqui produzidos, ou seja, afirmar a diferença exigindo um tratamento que nos permita ultrapassar de forma permanente constrangimentos igualmente duradouros.
O Plano e Orçamento para 2010 repõem, no essencial, as mesmas opções e medidas conjunturais para o actual contexto de crise económica, cujos efeitos, se agravam a cada dia – aumento do desemprego, salários em atraso, lay-off, crescente aumento das dificuldades das micro, pequenas e médias empresas. Quanto às questões estruturantes e que poderiam contrariar de uma forma efectiva os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional, medidas que corresponderiam a opções de ruptura, essas continuam adiadas.
Uma rede integrada e complementar de transportes marítimos e aéreos de passageiros e mercadorias, a definitiva aposta nos recursos humanos através da elevação das suas qualificações profissionais e académicas, a salvaguarda do sector produtivo enquanto factor de sustentabilidade da economia regional e a adequação do nosso modelo económico à nossa real dimensão, abandonando de uma vez por todas a peregrina ideia de procurar por via da concentração dar dimensão e escala de mercado à economia regional.
Do Plano e Orçamento espera-se, legitimamente, que assinale escolhas políticas, que defina prioridades, que trace rumos concretos, que resolva problemas estruturais no sentido de uma determinada visão do desenvolvimento, aguarda-se que dê também respostas a problemas imediatos e dê passos decididos para superar dificuldades de conjuntura.
Mas estas expectativas saíram uma vez mais goradas, o Plano e o Orçamento para 2010 não dão resposta a um conjunto de questões essenciais para as açorianas e os açorianos e, sobretudo, para a adopção e implementação de um modelo de desenvolvimento sustentável, social e economicamente mais justo. Não são traçados novos rumos, em vez disso, apenas dispersa apoios para consolidar dependências e clientelas e satisfazer corporações.
Não se enfrentam os problemas conjunturais e estruturais e, uma vez mais, apenas tenta aplicar paliativos para adiar dificuldades.
Este Orçamento e o Plano limita-se a perpetuar a mesma receita de sempre, desejando que esta, por simples acto de vontade, se revele como o que nunca foi: eficaz para garantir o desenvolvimento harmónico dos Açores.
Aníbal C. Pires, In A UNIÃO, 28 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Por favor, quero um "gin"

Quase há uma semana na cidade da Horta e ainda não houve um momento para que esta imagem se transformasse numa agradável realidade.

O tradicional “gin do Peter” tem sido, para já e apenas, uma miragem.
Uma ilusão alimentada pelo desejo, diria mesmo pela necessidade de alguma descompressão e descontracção naquele espaço mítico onde se cruzam estórias de um Mundo que é mar mais do que terra.
Estórias que alimentam o porvir numa construção permanente de utopias, incontornavelmente, concebidas à volta desse imenso oceano de sonhos e oportunidades e… quantas e quantas vezes sustentadas pelas propriedades do seu fabuloso e lendário “gin”.

Mais do mesmo

O Plano e Orçamento para 2010 propostos pelo Governo Regional continuam sem dar resposta a um conjunto de questões essenciais para os açorianos e para o desenvolvimento da Região e, ao contrário das expectativas criadas, o emprego e o investimento público nos sectores produtivos não têm a tradução que o discurso oficial fazia crer, quer nas medidas quer nos recursos financeiros que lhes são afectos. Afinal, as prioridades no emprego e no investimento público que têm vindo a ser anunciados, não passam disso mesmo: anúncios e propaganda.
As opções e prioridades consagradas nestes documentos demonstram a incapacidade do PS Açores em adaptar as opções políticas aos complexos tempos de crise que vivemos e insistem num modelo económico que caminha a passos largos para insustentabilidade.
Perante as dificuldades da produção regional e o estrangulamento da criação de riqueza nos Açores, o que o Governo se propõe é a continuidade, diria mesmo, o aprofundamento das políticas que visam o desmantelamento no sector produtivo.
Perante a quebra dos rendimentos e consequente retracção do consumo, o Governo continua a não propor medidas que possam aumentar, de forma directa, o rendimento disponível dos açorianos, bem como reduzir os custos de contexto no nosso mercado interno.
Perante a progressão cavalgante do desemprego, o governo reduz as verbas destinadas aos programas de emprego e nada propõe para o fomento e defesa do emprego.
Perante a necessidade da repartição socialmente equilibrada das dificuldades mas também dos rendimentos, o que o Governo propõe são sacrifícios para os mesmos!
Apesar de assumir a necessidade de revitalizar a nossa economia, estimulando a produção e o comércio de bens e serviços a verdade é que, para além de não se vislumbrarem medidas e investimentos decisivos, como seriam, por exemplo, a redução significativa dos custos dos transportes marítimos e aéreos, continuam, ao invés disso, a direccionar-se milhões e milhões de euros para a cessação da actividade agrícola e piscatória e para o resgate leiteiro!
Apesar de uma proclamada “prioridade ao emprego”, a verdade é esta parece estar muito mais em termos do princípio do que propriamente em medidas concretas de eficácia atestada. O emprego era já a questão prioritária em 2009, sem que se tenham sentido quaisquer consequências palpáveis em termos de resultados, bem pelo contrário o desemprego cresceu assustadoramente. Para piorar a situação, os programas específicos para esta área apresentam uma redução comparativa acentuada de investimento previsto, relativamente ao ano anterior.
Continuam a não se vislumbrar medidas que, para além de fomentarem a criação de emprego, possam proteger o emprego existente. Faltam as medidas para combater as dificuldades das pequenas e médias empresas, que constituem o essencial do tecido empresarial da Região.
Faltam as medidas conjunturais para debelar os efeitos da crise e, com 2013 no horizonte faltam, ainda, as medidas estruturantes para ultrapassar os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 25 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Prestar contas

No passado dia 17 de Novembro passou um ano sobre a tomada de posse dos deputados eleitos nas eleições regionais de Outubro de 2008 é, por conseguinte, tempo de algum balanço e prestação de contas aos eleitores que depositaram o seu voto e a sua confiança na CDU Açores.
Pese o facto novo introduzido pela nova e mais plural composição do Parlamento Regional, a existência de uma maioria absoluta do Partido Socialista, não permitiu dar os passos necessários para inverter essa situação, e permitiu ao governo Regional continuar a exercer uma política que objectivamente nos tem afastado da coesão e de um modelo de desenvolvimento sustentável. O governo regional encontrou sempre uma oposição firme e determinada do PCP Açores que, com as limitações da sua representação parlamentar, procurou sempre contrariar as medidas mais gravosas e, simultaneamente, propor rumos alternativos para a nossa Região.
A Representação Parlamentar do PCP Açores, eleita na candidatura da CDU, tem tido uma presença ímpar tendo apresentado, no primeiro ano da legislatura, 17 requerimentos, 8 votos, 5 Projectos de Resolução, 2 Ante-projectos de Lei e 1 Projecto de Decreto Legislativo Regional e realizado mais de 120 declarações políticas e intervenções em plenário, sobre as mais diversas questões e propostas.
Mas mais importante do que o aspecto quantitativo, o trabalho da Representação Parlamentar do PCP Açores deu corpo à denúncia e fiscalização das políticas do governo, ao combate às suas ofensivas políticas e legislativas e à apresentação de propostas alternativas para resolver os problemas da Região.
Assim, o PCP Açores apresentou requerimentos e perguntas ao Governo sobre problemas urbanos da Freguesia de Santa Clara, em São Miguel, sobre o sistema de bolsas complementares aos alunos do ensino superior e secundário, sobre o encerramento de lojas da SATA nas ilhas de menor dimensão, sobre o Parque de Exposições da Terceira, sobre problemas portuários em São Jorge, sobre o serviço de transporte marítimo de passageiros entre Pico, São Jorge e Faial, sobre o aeroporto de Santa Maria, sobre a Escola Profissional das Capelas e sobre a nova matriz curricular do ensino Básico, entre outros.
Desenvolvendo a sua actividade num quadro complexo, agravado pela enorme redução de meios e apoios parlamentares imposta pela maioria absoluta do PS no início do mandato, a Representação Parlamentar do PCP Açores conseguiu corporizar a importância e justeza do seu projecto alternativo e a validade do reconhecimento eleitoral que lhe foi dado pelos Açorianos.
A Representação Parlamentar do PCP Açores, apesar da sua dimensão limitada, conseguiu ser uma oposição consequente e com consequência, tendo feito aprovar algumas das suas propostas das quais saliento:
- A adopção de medidas cautelares e a classificação do Castelinho de Santa Clara, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, como imóvel de interesse público;
- O aumento das comparticipações aos doentes deslocados;
- A criação de um Plano Regional de Combate à Precariedade, Subemprego e Trabalho Ilegal;
- A criação do Centro de Adictologia da Horta;
- O reforço de verbas para os municípios poderem intervir directamente em situações de carência habitacional urgente valorizando, assim o papel de proximidade do Poder Local.
O trabalho parlamentar desenvolvido está ancorado no conhecimento directo da realidade concreta das nove ilhas dos Açores e no aprofundamento da ligação às populações tendo para isso sido efectuadas visitas oficiais a todos os círculos eleitorais da Região.
Aníbal C. Pires, In A UNIÃO, 20 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 22 de novembro de 2009

Realismo ou pragmatismo

“Este país está pronto para arder!” Foi com estas palavras que um jovem se referiu a Portugal tendo ainda acrescentado que as acendalhas podiam ser mesmo os processos judiciais que correm interminavelmente até chegarem à vara dos tribunais e, quando aí chegam percorrem outro tanto tempo até ao seu desfecho. Isto quando chega a haver um desenlace pois, como muito bem sabemos, há sempre um risco real de tudo se perder no tempo.
Bem procurei encontrar argumentos que contrariassem esta ideia tão negativa do seu próprio país, mas não foi fácil. Na falta de argumentos sobre o presente que contribuíssem para perspectivar um futuro auspicioso, tive de recorrer ao passado o que, está bom de ver, não chegou para convencer o meu jovem interlocutor, que me foi informando que, logo que chegue o momento, pretende procurar outros destinos onde a história não seja apenas a recordação de uma epopeia marítima, mas um processo de contínua construção e transformação.
O jovem atento ao que se passa no seu país tem fortes razões para estar descontente. Mas, mais do que as suas insatisfações pessoais, o que me deixou estupefacto foi a argúcia com que desmontou as indignadas declarações de José Sócrates à comunicação social quando este, há uma semana atrás, se referia ao facto de estar a ser “vítima” de escutas ligado ao caso “Face Oculta” e as posteriores declarações de dois dos seus homens de mão, Vieira da Silva e Santos Silva.
“Esses gajos devem julgar que somos estúpidos! Claro que não era o José Sócrates que estava a ser escutado, mas sim o seu amigo Armando Vara e outros quejandos. As gravações das escutas incluem o Sócrates porque, tal como ele reconheceu, falou por diversas vezes com o Vara e vá-se lá saber com quem mais dos restantes envolvidos.”
Pensei cá para comigo: então não é que o miúdo é capaz de ter razão? Aliás, a forma como o primeiro-ministro colocou a questão, pressionando o Procurador e o Presidente do Supremo, a cirúrgica intervenção de Vieira da Silva rotulando o caso de “espionagem política” e, por fim, a entrevista de Santos Silva à estação de televisão SIC, onde subscreveu as declarações do actual Ministro da Economia e ainda afirmou que “a escuta pela forma sistemática como decorreu configurava uma flagrante violação da Lei”, não aconteceram por acaso e não são inócuas.
Estes factos mais não pretendem do que criar um clima de vitimização à volta do Primeiro-Ministro e do seu governo e, uma vez mais, pôr em causa a independência do poder judicial, exercendo uma forte pressão política e mediática sobre o Ministério Público.
É preciso acreditar que é possível ultrapassar não só a crise, mas também este ciclo de mediocridade! Disse eu, já falho de outros argumentos, num derradeiro esforço para o jovem mudar de opinião. Esforço que não passou disso mesmo, pois foi em vão e nada demoveu o jovem que, a terminar, me voltou a surpreender com o seu racionalismo: “ Se é uma questão de fé, não tem discussão. O senhor fique lá com a sua convicção, que eu fico com a minha razão e vou procurar o meu sonho noutras paragens, como o fizeram muitos e muitos outros portugueses ao longo dos nossos 900 anos de história”.
Aníbal C. Pires, IN Diário Insular, 18 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 21 de novembro de 2009

No Sul da Macaronésia

Dos céus da Macaronésia(*) em viagem do Sul ficam alguma imagens aéreas.


Cabo Verde, Ilha do Sal, após a descolagem do Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, vista para Palmeira.


Cabo Verde, Ilha do Sal, costa Norte, rumo às Canárias.


No sobrevoo da Gran Canária, vista para Tenerife e mais além La Gomera.


Canárias, sobrevoando a Gran Canária.

Canárias, sobrevoando a Gran Canaria rumo a Norte.
(*) Os arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde constituem esta região dispersa pelo Atlântico Norte que, para além da insularidade, têm em comum algumas características geográficas, geológicas e biológicas que estiveram na origem da sua ‘classificação’, como região da Macaronésia (Ilhas Afortunadas - Nome resultante do grego – makáron => feliz, afortunado; nesoi => ilhas – a designação é atribuída ao geógrafo e botânico inglês, Philip Baker Webb, no século XIX.
A geografia e a biologia ditaram a designação da região da Macaronésia. A construção política, económica e social deste espaço insular atlântico está na agenda dos responsáveis políticos da República de Cabo Verde, dos Governos da Regiões Autónomas dos Açores e Madeira e do Governo da Comunidade Autónoma das Canárias.
A geografia, por um lado, e a história do seu povoamento, por outro, tornaram estas plataformas atlânticas, que constituem as ilhas da Macaronésia, em importantes pontos de chegada e partida de migrantes. A contemporaneidade traz-nos, em tempo real, imagens da importância destas ilhas, nomeadamente as que se localizam a Sul, nas migrações de desespero e dos dramas que lhe estão associadas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mundo unipolar

A chama da esperança que refulgiu um pouco por todo o Mundo com a eleição de Barack Obama, luz que brilhou mais nos espíritos de quem acredita em super heróis, foi-se extinguindo com o passar dos dias e dos meses, nem mesmo a atribuição do Nobel da Paz que foi assim como um reforço de super poderes, disfarça as fragilidades e a impotência do mediático inquilino da Casa Branca. Ao regozijo e à esperança sucedeu-se o tempo e com o tempo sublimaram-se as expectativas e definhou a esperança.
A eleição de Obama não deixa de ter um quê de simbólico, o que vale por si só, mas convenhamos que é muito pouco para tanto alarido e expectativa criada. Por mim, passado que é o tempo do estado de graça, não sofri nenhum tipo de desilusão pois nunca deixei de ver Obama como o “escolhido” para o contexto de crise e de anti-americanismo crescentes que se vivia. A necessidade passava pela reconfiguração do sistema e do modelo e nada melhor que voltar a dar exemplos ao Mundo. Barack Obama descendente de imigrantes africanos, com tudo o que isso significa na sociedade estado-unidense, não é mais do que o arquétipo ideal que serve de logro para manter em alta a referência dos Estados Unidos como uma sociedade onde prima a igualdade de oportunidades. Obama não é mais do que uma representação social e política para consumo interno e externo.
Com o fim da União Soviética os Estados Unidos assumiram o papel de única potência mundial a que corresponde o fim do equilíbrio bipolar que desde o fim da II Guerra Mundial caracterizou as relações internacionais o que não significa, como bastas vezes ouvimos, que deixou de haver um modelo alternativo ao capitalismo, aliás quem o afirma tende mais ou menos explicitamente levar-nos a concluir que o comunismo morreu, enquanto ideologia e modelo de desenvolvimento para a humanidade. Os tempos têm provado que nem a história nem as ideologias se finaram.
Mas essa é uma outra estória que ficará para outras abordagens e outros registos. Hoje trago algumas reflexões sobre as fragilidades do modelo unipolar, com centro nos Estados Unidos, imposto a um Mundo multipolar.
Os Estados Unidos para além da dificuldade que sempre tiveram em compreender as diferenças, ou seja, a multipolaridade do Mundo, ou ainda, se preferirmos, a linguagem silenciosa associada aos códigos culturais. Incompreensão que lhes tem trazido sérios dissabores nas incursões que amiúde levam a cabo fora das suas fronteiras, defrontam-se com outras fragilidades, quiçá mais reais mas, igualmente, pouco referidas no espaço comunicacional tido como referência:
- As dificuldades das forças armadas dos Estados Unidos na efectiva ocupação territorial das regiões e países que foram e são palco das suas intervenções bélicas;
- A debilidade da sua moeda. O valor do dólar está associado ao exclusivo que detém, desde o princípio da década de 70 do Século XX, nas transacções do petróleo. Esta exclusividade obriga a que todos os países compradores do ouro negro sejam obrigados a ter as suas próprias reservas da moeda dos Estados Unidos e é este factor, e não outro, que garante o poderio da nota verde; e
- A maior dívida externa do Mundo sendo que um dos principais credores da dívida estado-unidense é, nem mais nem menos, a China.
Considerando apenas a fragilidade monetária, que no fundo é a mais preocupante, porquanto o cenário da perda de exclusividade do dólar tem vindo a servir de ameaça por alguns dos países produtores de petróleo, mas também a ser equacionado internacionalmente a partir da deflagração da crise financeira internacional. A concretização de um panorama como aquele que enunciei constituiria a derrocada da economia estado-unidense pois o dólar deixaria de ter procura e o seu valor esfumava-se como se volatilizaram os títulos tóxicos que precipitaram a crise financeira.
Como é que os Estados Unidos vão gerir um cenário de deflação do dólar, que já não se situa apenas no campo das hipóteses, e a tendência real para a emergência de outras polaridades. E ficam como exemplo a Índia e a China para apenas referir o que os analistas, a Ocidente, consideram como potenciais concorrentes da hegemonia dos Estados Unidos. Em que é Barack Obama pode ser diferente neste cenário? E qual será o papel que nesta trama vai caber à União Europeia?
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 13 de Novembro, de 2009, Angra do Heroísmo