sábado, 30 de junho de 2018

Da saudade - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires







Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 17 de Março de 2018 que pode ser ouvida aqui








Da saudade

Olá, hoje trago-lhe um texto que escrevi, na cidade da Horta, vai para 7 anos. Fique comigo que as palavras que lhe vou deixar falam de nós. Sim, falam de si.

Partir e chegar
O cais da partida e do almejado regresso transmutou-se. A tristeza dos que ficam, a saudade que já germina nos que partem, não muda nunca. Não muda ainda que esse seja um secular fado do povo português, Partir, já a pensar em voltar.
Da baía abrigada do porto para a aerogare. Dos intermináveis dias de viagem para umas fugidias horas, da pedrinha escrita no cais para o sms, da carta escrita para o mail, do telefone fixo, ou móvel, para o skype.
Conquistas da ciência e da tecnologia que afagam os sentimentos e dão a sensação de proximidade, mas que não evitam, na hora da partida, aquele aperto no peito, os dentes cerrados tentando impedir uma lágrima que teima em assomar e rolar pela face e, o sentimento de vazio que, ao último beijo, ao derradeiro aceno, enche a alma de tristeza de quem fica, e de quem parte.
Há coisas que as maravilhas da ciência e da técnica não vão mudar nunca. Entre a partida e o regresso fica o vazio da ausência e, isso, não se altera. Não há avanço tecnológico que preencha o roubo da presença de quem amamos, ainda que o regresso esteja seguro e a ausência seja curta.

Foto by Aníbal C. Pires
Temos sempre alguém por fora, temos sempre alguém embarcado e não há como habituar-nos. Nem mesmo o tempo, o tempo que é cura para todos os males, remedeia a saudade. Saudade que nem sempre é tristeza, mas é sempre, sempre, um vazio e o refúgio que alimenta a esperança da alegria no regresso, ainda que apenas te tenha deixado ontem no cais da partida. No mesmo embarcadouro de onde vistes partir os teus filhos quando tomaram asas e voaram do ninho, naquele cais da saudade onde nos recebes de sorriso aberto, mas com uma lágrima a espreitar antecipando uma nova partida.
Não há como mudar a dor da hora da abalada, não há como mudar o sentimento de vazio que a ausência desperta, não há como abafar esta saudade. Saudade tão própria dos ilhéus, saudade tão própria dos portugueses. Não há como mudar os sentimentos de um povo marcado pela partida da qual nem sempre há regresso e a saudade perpetua-se, e a saudade canta-se no choro triste da morna, do fado, da saudade.
Há coisas que não mudam nunca, outras há, porém, que se podem alterar. Só depende de nós. Só depende de si.
Horta, 02 de Junho de 2011

Fique bem, tenha um excelente fim de semana. Eu volto no próximo sábado.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 07 de Abril de 2018

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