segunda-feira, 19 de março de 2018

... nada de novo

Foto by Madalena Pires (S. Miguel, 2017)




Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e também no blogue aqui neste blogue






(...) Podendo concordar com os princípios e preocupações que estão subjacentes às medidas anunciadas quer-me, no entanto, parecer que existem algumas insuficiências nesta reestruturação que foi anunciada. Falta, desde logo, um eixo para a Qualificação e Formação dos trabalhadores do setor. Vá-se lá saber porquê.
As medidas anunciadas denotam, uma vez mais, que o Governo Regional está a agir por reação, e que sobre o setor não tem uma visão política de futuro, apesar da sustentabilidade aparecer como uma grande preocupação e, mesmo aquilo que possa parecer novidade no discurso do Presidente do Governo Regional, ou seja, a introdução do conceito de sustentabilidade social traduzida na necessidade de uma Convenção Coletiva de Trabalho para o setor. Mas nem sequer isto é uma novidade pois, a Lei n.º 15/97, de 31 de Maio de 1997, proposta pelo PCP, consagra de entre outras medidas a obrigatoriedade de contrato de trabalho para os pescadores. Lei que nunca foi aplicada na Região, a não ser a comemoração do Dia do Pescador (31 de Maio) que a Lei também instituiu. (...)

sábado, 17 de março de 2018

da poesia e da luta, ou sobre a execução de Marielle Franco

Marielle Franco (imagem retirada da Internet)






Este foi o melhor texto que li sobre a morte de Marielle Franco






Não… Eles não a mataram. Eles não a matarão.

Morreu.
Morreu a preta da maré,
a negra fugida da senzala
que foi, sentar com “os dotô” na sala
e falar de igual pra igual com “os homi”.
A negra que burlou a fome de se saber,
que fez crescer dentro dela, o conhecimento.
Aquela, que por um momento de humanidade,
sonhou com a justiça, lutou por liberdade
e ousou ir mais alto,
do que permitia sua cor.
“Mas preta sabida, não pode!
Muito menos pobre! Não tem valor.”
Diziam as más línguas na multidão.
E ela ousou tirar seus pés do chão.
Morreu.
Morreu a “preta sem noção”,
que falava a verdade na cara do patrão,
que carregava a coragem, como bagagem,
no coração.
O tiro foi certo,
acertou com maldade,
ecoando seco no centro da cidade.

Anielli Carraro- Poeta de Volta Redonda

De vítima a agressora - crónicas radiofónicas

Ahed Tamimi (Imagem retirada da Internet)



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 30 de Dezembro de 2017 que pode ser ouvida aqui






De vítima a agressora

Ao longo destas semanas tenho abordado vários temas, mas julgo que, ainda em nenhum destes momentos que tenho partilhado consigo, lhe trouxe qualquer assunto da política internacional.
Alguma vez teria de ser, pois se bem se lembra no promocional que antecedeu estas crónicas radiofónicas tinha ficado o compromisso de que tudo, mas mesmo tudo aqui poderia ser abordado, sem tabus.
O assunto que trago hoje é complexo e sem fim à vista, aliás desde a minha meninice que o ouço ser tratado nos noticiários, nem sempre de forma imparcial, e tem-se perpetuado no tempo apesar das Resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a questão.
Ahed Tamimi (imagem retirada da Internet)
O que motivou este olhar sobre o conflito que dura e perdura na Palestina não é tanto a questão histórica, embora lhe deixe aqui dois apontamentos. Após a II Guerra Mundial, mais precisamente em 29 de Novembro de 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a divisão da Palestina em dois estados, um judeu e outro árabe. Mas como lhe disse a questão é complexa pois, o Estado árabe (a Palestina) não foi internacionalmente reconhecido, ao contrário do que se passou com o estado judeu (Israel) e, essa terá sido uma das razões, a par de outras questões como por exemplo a Declaração de Baulfour, de 1917, que estão na origem deste conflito sem fim à vista. Mas o tema de hoje sendo sobre a questão israelo palestiniana é sobre um acontecimento recente, embora velho nos procedimentos do exército ocupante dos territórios palestinianos. Ou seja, a detenção de crianças e jovens palestinianos pelo exército de Israel. Crianças e jovens que mais não fazem do que opor-se à ocupação do seu território e à violação do direito internacional por parte de Israel.
Uma jovem de 16 anos que desde criança, ao lado da família e com outras crianças e jovens se tem manifestado e oposto à presença dos colonatos judeus e do exército colonizador foi presa. Foi presa durante a noite, e está a ser julgada por um tribunal israelita. A jovem de seu nome Ahed Tamimi foi presa com mais 2 outras mulheres da sua família, uma delas a própria mãe, e está acusada de vários crimes de entre os quais a agressão a dois soldados israelitas. E de facto agrediu dois soldados judeus com pontapés e socos, o vídeo está por aí disponível no youtube para quem o quiser visionar.
Importa, contudo, contextualizar esse acontecimento para entender a agressão da jovem Aehd Tamimi aos dois soldados israelitas. A jovem vive numa pequena localidade de 500 habitantes cercada por colonatos judeus, os soldados encontravam-se no pátio da casa onde vive com os pais e o incidente deu-se depois dos soldados terem disparado sobre um jovem primo da adolescente palestiniana.
Esta contextualização é relevante pois quem visionar o vídeo não entende o comportamento da jovem e a passividade dos soldados.
Ahed Tamimi (imagem retirada da Internet)
Perguntará, com toda a razão, porque lhe trago esta estória, e eu dir-lhe-ei, Porque não tem sido notícia e, sobretudo, porque revela a dualidade de conduta e ação dos movimentos humanitários que face a situações idênticas, mas em contextos diferentes, se mobilizam na denúncia de situações análogas. Mas ao que parece, vá-se lá saber porquê, a jovem Aehd Tamimi não se enquadra como a vítima ideal para ser objeto de apoio internacional, designadamente dos movimentos feministas. Talvez, digo eu, porque esta corajosa jovem nasceu, segundo os critérios ocidentais, no local e no lado errado.
Ahed Tamimi é já um novo ícone da resistência palestiniana à ocupação e colonização que Israel, com o apoio dos Estados Unidos, tem levado a cabo na Palestina, mas a sua prisão e acusação não tem, inexplicavelmente, merecido um amplo movimento internacional de repúdio e condenação de mais este atentado de Israel contra jovens palestinianos.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 06 de Janeiro de 2017

quinta-feira, 15 de março de 2018

Cansado das câncios e admirando as mulheres que lutam

Marielle Franco (imagem retirada da Internet)
Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro e militante do PSOL foi assassinada, na noite de 14 de Março pp, com ela foi também assassinado Anderson Pedro Gomes. O alvo era a Marielle, mas nem por isso o nome de Anderson deve ser obliterado.
Fica a minha homenagem à mulher e ativista de esquerda, fica a minha homenagem ao Anderson, fica a minha homenagem e o reconhecimento a todos quantos, no Brasil e no Mundo, lutam por um Mundo melhor.



Rita Rato (imagem retirada da Internet) 
Uma das primeiras publicações que li, numa rede social, sobre o assassinato de Marielle foi a de Rita Rato e que transcrevo:
Há duas semanas escrevi n' A Visão sobre a mutilada "democracia" brasileira. Hoje, pelas piores e mais tristes razões, a realidade é implacável.
Primeiro foram camponeses do Movimento dos Sem Terra, depois dirigentes e activistas sindicais, ontem uma Vereadora do Rio de Janeiro. 
Marielle Franco seria relatora da comissão parlamentar sobre a intervenção militar no RJ.
Toda a solidariedade e força aos amigos e povo do Brasil.”

Fernanda Câncio (imagem retirada da Internet)

Outra das publicações, nas redes sociais, que tive oportunidade de ler sobre o assunto foi a de Fernanda Câncio que passo a transcrever:
“marielle era mulher, negra, feminista, política de esquerda, corajosa na denuncia da violencia de estado, nascida na favela e gay. o jackpot do ódio de direita. quatro tiros na cabeça. nao ha como negar o simbolismo desta execuçao. o brasil entrou num novo patamar esta madrugada.”



Dilma Rousseff (Imagem retirada da Internet)

Mais tarde li a publicação de Dilma Roussef sobre o assassinato de Marielle Franco que diz assim:
“Tristes dias para o país onde uma defensora dos direitos humanos é brutalmente assassinada. Lamento e repudio a morte da ativista Marielle Franco, vereadora pelo PSOL, e de Anderson Pedro Gomes, seu motorista.” 


Não vos vou maçar com mais citações. Gostaria, contudo, que atentassem ao que distingue as publicações de Rita Rato e Dilma Rousseff da publicação de Fernanda Câncio. Dir-me-ão que a publicação de Fernanda Câncio é mais completa. Para além de ser uma mulher de esquerda, o que se percebe nas 3 publicações. Marielle era negra, era feminista, era gay, e nasceu numa favela.
Não se tratando de uma notícia, nem do obituário, nem de uma nota biográfica diria que a Fernanda Câncio enfatizou 2 aspetos, dou-lhe os outros 2 de barato, que para o caso são irrelevantes, ou melhor, podem induzir algum ruído desnecessário para a essência da questão. Marielle nasceu numa favela e era gay. Isto é, mais ou menos, como ao referir-me a Fernanda Câncio, dizendo que é uma jornalista e cronista com evidente notoriedade na sociedade portuguesa, e depois acrescentar, que foi namorada de José Sócrates ou, quiçá, sua acompanhante ocasional. Para quê. Quero lá saber da vida privada da Fernanda Câncio, ou da orientação sexual de alguém. É irrelevante. Pelos vistos, para algumas(uns) notáveis jornalistas e cronistas da nossa praça, Não é.
A singeleza e rigor das publicações de Rita Rato e Dilma Rousseff a centrarem-se na essência. Fernanda Câncio a perder-se nos acessórios.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Março de 2018

quarta-feira, 14 de março de 2018

Agora é o tempo

Foto by Aníbal C. Pires
Os resultados das negociações dos sindicatos dos professores e educadores com o governo do PS são conhecidos. Passados quase 4 meses sobre a assinatura de uma declaração de compromisso, entre as partes, e mais de 3 meses sobre a aprovação, na Assembleia da República, de uma recomendação ao governo, que o Grupo Parlamentar do PS também aprovou, para que o tempo de serviço congelado fosse integralmente recuperado para efeitos de progressão na carreira docente, o governo do PS, liderado por António Costa, perdeu o pudor e veio dar o dito por não dito apresentando uma proposta, de todo inaceitável, para os educadores e professores.
As expetativas, pelo menos as minhas, de que o governo do PS mantivesse a palavra e houvesse um entendimento com as estruturas sindicais, sem que tivesse lugar um processo de luta eram baixas, porém, estaria longe de pensar que a insolência fosse tão longe.
Depois da declaração de compromisso e da recomendação aprovada na AR que claramente vinculam o governo da República à contagem integral, para progressão na carreira docente, do tempo de serviço congelado, mais de 9 anos para dos docentes do continente, tenha sido apresentada na mesa negocial a recuperação de apenas 2 anos e 10 meses. É o PS a voltar às raízes que caraterizaram os governos de José Sócrates.
Foto by Aníbal C. Pires
Pode até pensar-se que os sindicatos, designadamente a FENPROF, partem de uma posição extremada, mas não é o caso. É claro que os educadores e professores e a FENPROF não abdicam da recuperação integral do tempo de serviço, mas o que propõem é que o reposicionamento na carreira seja feito faseadamente para que o impacto orçamental seja diluído ao longo de 5 anos (até 2023). Eu diria que se existe dinheiro para perdões fiscais e outras manigâncias moldadas para servir espúrios interesses e que atingem valores de milhares de milhões de euros, então não me venham dizer que não há dinheiro, mesmo sem faseamento, para reposicionar todos os docentes contando-lhes integralmente o tempo de serviço.
De tempos a tempos o governo de António Costa vai mostrando qual é a sua verdadeira natureza. Não tenhamos ilusões o PS não abandonou o (seu) projeto político que pouco difere dos projetos políticos da direita portuguesa cuja dimensão o PSD e o CDS/PP, tão bem demonstraram entre 2011 e 2015. Não tenhamos qualquer ilusão, todas as medidas que romperam com as opções políticas do anterior governo devem-se à conjuntura política e parlamentar que permitiu ao PS chegar ao poder, a recuperação de direitos e rendimentos não é uma vontade expressa do governo de António Costa, o governo do PS a isso tem sido obrigado por força dos acordos bilaterais com o PCP, o PEV e o BE, mas sobretudo resultam da luta travada pelos trabalhadores e pelas populações.
E chegou agora a vez dos educadores e professores mostrarem ao governo de António Costa e ao PS que têm de honrar os compromissos que assumiram, e essa demonstração tem de ser feita com luta, esta semana greves por regiões, depois se verá. Mas pode António Costa contar que os educadores e professores não vão desarmar, nem agora nem em 2019 quando lhes vier pedir apoio eleitoral.

Ponta Delgada, 12 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 13 de Março de 2018

terça-feira, 13 de março de 2018

... do despudor do PS

Foto by Madalena Pires (S. Miguel, 2017)








Excerto de texto a publicar na imprensa regional e no blogue momentos













(...) As expetativas, pelo menos as minhas, de que o governo do PS mantivesse a palavra e houvesse um entendimento com as estruturas sindicais, sem que tivesse lugar um processo de luta eram baixas, porém, estaria longe de pensar que a insolência fosse tão longe. 
Depois da declaração de compromisso e da recomendação aprovada na AR que claramente vinculam o governo da República à contagem integral, para progressão na carreira docente, do tempo de serviço congelado, mais de 9 anos para dos docentes do continente, tenha sido apresentada na mesa negocial a recuperação de apenas 2 anos e 10 meses. É o PS a voltar às raízes que caraterizaram os governos de José Sócrates.
Pode até pensar-se que os sindicatos, designadamente a FENPROF, partem de uma posição extremada, mas não é o caso. É claro que os educadores e professores e a FENPROF não abdicam da recuperação integral do tempo de serviço, mas o que propõem é que o reposicionamento na carreira seja feito faseadamente para que o impacto orçamental seja diluído ao longo de 5 anos (até 2023). (...)

segunda-feira, 12 de março de 2018

I Don't Belong Here, O drama da deportação

Imagem retirada da internet
Já tinha ouvido falar do projeto e dos produtos culturais que daí resultaram (a encenação de uma peça de teatro e um filme) e, conheço com relativa proximidade o drama das deportações. Por razões diversas não tive oportunidade de assistir à representação teatral, mas ontem tive ocasião de ver o filme de Paulo Abreu que, não pretendendo substituir-se à peça de teatro encenada por Dinarte Branco, nos dá conta de como tudo começou e como se materializou. O filme, I Don't Belong Here, constitui-se num excelente documental em que um grupo de deportados olha, de forma crítica, para o seu percurso de vida, para os estigmas que pendem sobre si, mas também para a sociedade para onde compulsivamente retornaram e onde não querem, em definitivo, ficar. Nasceram aqui, mas estão moldados por outras geografias culturais e físicas, Não pertencem a esta.
Esta abordagem pela arte ao drama das deportações tem, na sua génese, acompanhamento e concretização, Nuno da Costa Santos como um dos seus principais mentores. Afinal o Nuno é um açoriano de nascimento, um cidadão do mundo atento ao que se passa à sua volta, seja no lugar confinado de uma ilha, seja na vastidão dos espaços continentais. Estas condições não lhe conferem nenhuma particular obrigação, mas não tenho dúvidas que contribuíram decisivamente para o sucesso desta empreitada. Só posso reconhecer mérito a esta iniciativa e ao empenho do Nuno e de toda a equipa que, sem impor roteiros e guiões, soube aceitar, e compreender os contributos e iniciativas dos protagonistas feitos atores, pela mão do encenador Dinarte Branco.
São estórias de percursos da migração interrompidos de forma brutal, dramas pessoais e familiares irresolúveis. Não há como retornar à matriz vivencial onde foram moldados e essa será, porventura, a maior das penas que têm de expiar.
A deportação de cidadãos pelos Estados Unidos e pelo Canadá não é exclusiva destes países. A lei dos estrangeiros em Portugal mantém a designada pena acessória de expulsão, ou seja, a deportação. Existem diferenças substantivas no quadro legal português que a diferencia positivamente dos referidos países, mas em Portugal também há lugar à deportação de cidadãos estrangeiros. Esta referência não pretende justificar nada, é apenas uma menção factual.
A deportação de centenas de cidadãos produz, nos lugares para onde são encaminhados, fenómenos de não aceitação. Desde logo, por parte dos cidadãos deportados que não se identificam nem com o espaço, nem com os comportamentos sociais e culturais, mas também do tecido social do território de acolhimento onde se manifestam alguns e naturais comportamentos de rejeição. Por muito despidos de preconceitos que sejamos, não tenhamos ilusões sobre isso, olhamos para o outro, neste caso alguém que cometeu um crime num país estrangeiro, esteve preso e foi deportado, como um cidadão indesejado, um marginal.

Imagem retirada da Internet
Quando a deportação de centenas de cidadãos é encaminhada para o território confinado de uma ilha esses fenómenos agravam-se exponencialmente. Não é assim de estranhar a recorrente utilização da expressão o rochedo, numa clara alusão a Alcatraz, quando os deportados se referem à ilha onde vivem, neste caso à ilha açoriana de S. Miguel e não à ilha de Alcatraz situada na baía de São Francisco, onde existiu um presídio e hoje é um dos centros de atração turística daquela cidade da Califórnia.
As sociedades insulares têm caraterísticas muito peculiares às quais, neste caso, não vou atribuir nenhuma relevância para justificar as dificuldades que sentem os deportados em se integrarem, bem assim como o sentimento de rejeição social face aos cidadãos deportados. No caso das ilhas açorianas será a sua dimensão territorial e, em particular, a sua reduzida dimensão populacional que mais dificulta a integração e a aceitação dos deportados. Esta asserção nada tem de científico, resulta da interpretação que faço das próprias palavras dos protagonistas também eles os atores quando afirmam, durante a sua estadia em Lisboa, que ali não se sentem discriminados, nem olhados como marginais. A dimensão populacional e a urbe lisboeta aproximam-nos da matriz onde foram moldados, ali sentem-se como se fizessem parte da paisagem urbana, na ilha sentem que serão eternamente excluídos.
A temática da deportação faz, naturalmente, parte da agenda académica dos estudos sobre as migrações e, existem variados ensaios e trabalhos sobre o assunto. Importaria que esta agenda fosse introduzida na ação política e diplomática pois, trata-se de uma questão humanitária que resulta de uma injustiça inaceitável – cumprir uma dupla (deportação), ou mesmo tripla pena (impedimento de regressar) pelo mesmo crime, sendo que a segunda e a terceira inviabilizam a reinserção social e laboral na sociedade pela qual nutrem um forte sentimento de pertença.
A deportação afeta, no essencial, os cidadãos das populações migrantes social, cultural e economicamente mais fragilizadas, por isso emigraram e em virtude disso foram deportados. Nem todos os percursos migratórios são estórias de sucesso. E se a principal responsabilidade é individual, pelo comportamento ilícito e por não terem, em devido tempo, obtido a naturalização no país de acolhimento, não podemos, nem devemos esquecer que as políticas nacionais para a emigração, nem sempre promovem a integração plena nos países recetores de migrantes portugueses. Estas opções políticas responsabilizam-nos coletivamente pelo drama da deportação.
Ponta Delgada, 11 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 12 de Março de 2018

domingo, 11 de março de 2018

... da não pertença

Foto by Madalena Pires (2018)







Fragmento de texto a publicar amanhã na imprensa regional e também aqui, no momentos











(...) O filme, I Don't Belong Here, constitui-se num excelente documental em que um grupo de deportados olha, de forma crítica, para o seu percurso de vida, para os estigmas que pendem sobre si, mas também para a sociedade para onde compulsivamente retornaram e onde não querem, em definitivo, ficar. Nasceram aqui, mas estão moldados por outras geografias culturais e físicas, Não pertencem a esta.
Esta abordagem pela arte ao drama das deportações tem, na sua génese, acompanhamento e concretização, Nuno da Costa Santos como um dos seus principais mentores. Afinal o Nuno é um açoriano de nascimento, um cidadão do mundo atento ao que se passa à sua volta, seja no lugar confinado de uma ilha, seja na vastidão dos espaços continentais. Estas condições não lhe conferem nenhuma particular obrigação, mas não tenho dúvidas que contribuíram decisivamente para o sucesso desta empreitada. (...)

sábado, 10 de março de 2018

Passado, presente e futuro - crónicas radiofónicas

Foto by Madalena Pires (2017)






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 30 de Dezembro de 2017 que pode ser ouvida aqui








Passado, presente e futuro

No limiar de um novo ano não há como evitar algumas referências à data em que o calendário assinala o seu início.
Não vou fazer balanços, nem tecer considerações sobre o ano que se avizinha, mas não posso deixar de lhe desejar, como desejo para mim, que 2018 seja um ano para concretizar as realizações pessoais e profissionais pelas quais tem lutado e que tanto quer.
Seja feliz e haja saúde.
Cumprido que está o ritual pouco mais tenho para lhe dizer. Cumpri o ritual, mas não foi uma obrigação, nem as parcas palavras estão despojadas de sentimento pois, se assim fosse tinha-me socorrido da fórmula tradicional para lhe desejar um Bom Ano.
Posso não ter sido muito criativo na forma, mas o seu bem-estar, a sua felicidade serão, julgo eu, a sua maior expetativa para 2018, e mesmo que se sinta bem consigo e com os outros, ou seja, mesmo que o seu estado seja de felicidade peço-lhe que entenda os meus votos como o prolongamento, diria mesmo, a perpetuação dessa felicidade.
Hoje, como convém, por estes dias de encontros e reencontros, por estes dias de despedida do velho e de preparação das boas vindas ao novo não vou prolongar este momento. Coisas há mais importantes para fazer.
Foto by Aníbal C. Pires (2016)
Gosto de estar por aqui e gosto de estar consigo, mas teremos muitas outras oportunidades de conversar ao longo do próximo ano. Hoje é tempo de se preparar para transpor o limiar do Ano Novo. Mas não vou embora sem lhe deixar algumas palavras que versam sobre um virtual instante em que nos encontramos com o passado, o presente e o futuro. Sim porque a passagem de ano é assim como um brevíssimo momento em que o passado, o presente e o futuro se encontram connosco, e é sobre esse potencial instante que lhe deixo estas palavras que escrevi na noite da passagem do ano de 2013 para o ano de 2014 e ao qual dei o título, Novo ano, novo tempo

É o tempo
De louvar o velho
É o tempo
De renovar a esperança
E o tempo, esse tempo
É hoje
Presente, passado e futuro
Enleados
Com o olhar no tempo vindouro
Sem olvidar
O tempo passado

Hoje
É o tempo
Onde o passado, o presente e o futuro
Num fátuo momento se enlaçam
Para logo se apartarem
Efémero abraço esse, o do tempo
Passado, presente e futuro

Nesta fronteira do pretérito e do porvir
Celebremos o futuro
Com o passado presente

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 30 de Dezembro de 2017

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os sonhos não se aprisionam

Imagem retirada da Internet
Quantas vezes lhe predestinaram o fim, Não sei, mas foram tantas e tantas que acabei por lhes perder o conto. Não se extinguiu porque subsistem as razões pelas quais foi criado e não abdicou, nem abdica dos princípios que lhe conferem uma natureza diferente, é um partido revolucionário que luta pelo povo e com o povo.
Não sucumbiu durante a ditadura, nem se vergou perante o terrorismo bombista e incendiário, como não se curva perante as opiniões e pressões que, ciclicamente, lhe querem ditar a extinção e assinar o óbito.
Não vale a pena insistir. Os 97 anos da sua existência ensinam-nos que o seu compromisso é com o futuro. E este é um compromisso inquebrantável. Os sonhos não se aprisionam, os comunistas portugueses têm um sonho e o sonho tem Partido.
Imagem retirada da Internet
O Partido Comunista Português(PCP) celebra este ano o seu 97.º aniversário da sua existência. Mas mais do que olhar para o passado, que não deve nem pode ser esquecido, o PCP é um Partido do presente com um projeto de futuro.
O papel do PCP na atualidade política nacional, por mais que se pretenda diminuir, tem sido e continuará a ser o garante da defesa dos trabalhadores e do povo português, foi com a iniciativa e o contributo do PCP que se abriu caminho a uma solução governativa que colocou um ponto final na continuidade das políticas com que o PSD e o CDS/PP delapidaram o país, desvalorizaram os trabalhadores e abandonaram o nosso povo à sua sorte. Foi com o contributo e a iniciativa do PCP, não tenhamos ilusões por mais ilusionistas que por aí pululem, que se deu início ao processo de reposição direitos e rendimentos, com os efeitos, diretos e indiretos, que são comprovados pela melhoria dos indicadores sociais e económicos que, apesar dos esforços da direita para os menorizar, são reconhecidos interna e externamente.
Imagem retirada da Internet
A capacidade de intervenção e a influência do PCP não dependem só da sua representação institucional, mas sem maiorias absolutas, em 2019, e com o reforço da sua votação e do número de deputados eleitos maior será a sua influência e capacidade de contribuir para as soluções políticas que o país necessita para se libertar das pressões externas e dos oligopólios financeiros que dominam e influenciam a política da União Europeia.
O PCP confia e os portugueses sabem e confiam que este Partido não lhes falta na vanguarda das lutas do presente sempre com os olhos postos no futuro. Um futuro que permita construir uma política patriótica e de esquerda que devolva a Portugal a sua soberania, e ao seu povo a dignidade.
O PCP mantém-se fiel aos seus princípios ideológicos, só o desconhecimento e a má fé podem dar sustentação aos epítetos de sectário e dogmático pois, é a própria matriz ideológica que lhe confere a natureza e identidade que o contraria, ou seja, os comunistas não querem antecipar dogmaticamente o mundo, mas encontrar, a partir da análise deste mundo velho, o mundo novo.
Ponta Delgada, 06 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 07 de Março de 2018