terça-feira, 1 de maio de 2018

Transportes aéreos IV – Mobilidade e transportadoras

Foto by Aníbal C. Pires
(continuação)
Termino, com esta quarta publicação, um conjunto de textos sobre a problemática dos transportes aéreos na e para a Região Autónoma dos Açores. O que fica registado é, no essencial, um alargado conjunto de reflexões, mas também algumas opiniões não especializadas pois, quer a reflexão quer a opinião que registei ao longo destes textos resulta, tão-somente do conhecimento empírico construído com base na observação atenta da realidade. Por outro lado, este documento mais não pretende do que contribuir, exercendo o meu direito de cidadania, para a necessária e profunda discussão que deve ser promovida sobre tão importante e instrumental setor estratégico para uma região distante, insular e arquipelágica.
Qualquer abordagem sobre aos transportes aéreos na e para a Região tem de ter em consideração algumas premissas, sem as quais a análise ficará inquinada e, como tal distorcida e parcial.
Somos uma Região Autónoma portuguesa e face à União Europeia uma Região Ultraperiférica, assim, e desde logo, a política de transporte de passageiros, mas também de mercadorias, deve ser integrada no princípio da coesão e continuidade territorial, de onde decorre que os custos associados à mobilidade não podem ser ditados pelo mercado. Não beneficiamos de investimentos nacionais e comunitários que garantem a mobilidade e a circulação no espaço continental da União Europeia. A compensação é-nos devida e deve ter reflexos nos custos de transporte aéreo na e para a Região.

Foto by Aníbal C. Pires
Qualquer modelo de transporte aéreo na e para a Região deve ser desenhado tendo como prioridade a mobilidade dos residentes e a satisfação das necessidades da economia regional, seja no plano do mercado interno, seja no plano das exportações e importações, onde incluo, necessariamente, o turismo. Ou seja, o modelo tem de ser compaginável com estes interesses, sob pena, se assim não for, de se constituir como fator de estrangulamento a um direito elementar que é o direito ao não isolamento e à mobilidade, mas também ao desenvolvimento regional.
A existência de uma transportadora aérea pública constitui-se com elemento fundamental de um modelo de transporte aéreo na e para a Região. E esta premissa não é apenas, é-o também, por uma questão de ordem ideológica, mas por constatação de que quando este serviço é assegurado pelo setor privado fica mais caro ao erário público e as respostas às necessidades e ao interesse regional são inexistentes, ou diminuem a qualidade do serviço. Isto não significa que o Grupo SATA esteja dispensada de críticas face a algumas opções e serviços prestados.
As transportadoras aéreas privadas devem competir com as mesmas regras que são aplicadas às empresas públicas, sob pena de o tão desejado mercado ser distorcido, aliás como é habitual.
Passados que são mais de 3 anos sobre a liberalização de algumas das rotas açorianas existem já dados suficientes para perceber que a Região não pode ficar dependente do transporte aéreo privado e, muito menos das transportadoras aéreo de baixo custo. Como sabemos uma delas já abandonou gorando as expetativas de alguns cidadãos.

Foto by Aníbal C. Pires
Mas na verdade continuam a existir setores na sociedade açoriana e no próprio poder político regional que insistem. Vejamos, foi anunciado, primeiro pela Ryanair, a disponibilidade de voar para mais uma “gateway” dos Açores (Pico ou Faial), depois a Secretária Regional que tutela os transportes veio afirmar que essa era uma possibilidade real. No Faial e no Pico não faltam cidadãos e organizações radiantes com essa possibilidade. Esta questão para além de outras implicações de ordem interna e local que têm servido, ao poder político (governo e alguma oposição), para dividir e manipular genuínos movimentos de cidadania (quer no Pico quer no Faial), esta questão como dizia não é de somenos importância. As transportadoras aéreas de baixo custo só voam para rotas onde não existem OSP, ou seja, a não haver uma subversão das OSP a “gateway” que for contemplada com ligações aéreas, no caso vertente a Ryanair, ficará sem OSP. Ou seja, em última instância a “malfadada” SATA fica desobrigada de voar para essa rota. Se isso é favorável aos interesses dos cidadãos e das organizações que clamam pela entrada da Ryanair, ou outra companhia de baixo custo, Julgo que não. Mas mais importante que a minha opinião é que os interessados (somos todos nós) tenham este aspeto em consideração quando formulam as suas reivindicações;
O negócio das transportadoras aéreas de baixo custo tem caraterísticas muito próprias que, em minha opinião, não se adequam ao perfil da maioria dos passageiros ilhéus. Esta é a minha opinião, mas existe uma outra questão, Quem paga a operação uma vez que a receita da venda das passagens aéreas, por si só, não é suficiente para garantir os custos de exploração, por muito baixos que sejam, quanto mais para obter lucro. Alguém paga e, normalmente são os destinos. Como é pago, Bem através de contratos publicitários, facilidades na utilização das infraestruturas aeroportuárias e, quiçá, através de processos que não são tão visíveis nem tangíveis, Digo eu. E isto, como é bom de ver, não é o mercado a funcionar, isto tem um outro nome que me dispenso de utilizar aqui, pelo menos por agora.
Foto by Madalena Pires (2018)
Mas não só, importa também um olhar para as transportadoras que asseguram a mobilidade dos açorianos e as ligações regulares com a Região, seja nas rotas liberalizadas, seja nas rotas que estão sujeitas a OSP, seja ainda, e, não menos importante, o transporte aéreo interilhas que, por enquanto continua a ser assegurado pela SATA Air Açores, mas nada garante que no próximo concurso de OSP, ou até com uma eventual alteração das regras, não venha por aí uma outra transportadora aérea. A Binter já domina o transporte na Macaronésia, já faz o transporte aéreo entre a Madeira e o Porto Santo. Rota, como sabemos, de OSP e que a SATA abandonou há alguns anos atrás.
Antes de passar para algumas considerações sobre a SATA apenas uma referência, embora já a tenha registado anteriormente. Para além das ligações regulares o recurso a voos “charters” afigura-se como uma, das melhores soluções para a canalização de fluxos turísticos para a Região. Vejam-se alguns bons exemplos já existentes e este papel cabe, no essencial, à dinâmica dos operadores turísticos regionais e às diversas associações de turismo existentes na Região.
Por fim uma breve incursão para olhar como se situa o Grupo SATA no meio deste imbróglio, eu diria que ninguém sabe, desde logo a própria SATA. A SATA Internacional entrou em derrapagem financeira a partir de 2012. Os motivos são conhecidos por quem acompanha mais de perto o assunto. As razões são de vária ordem e não se limitam apenas aos que o Deputado Francisco César, numa recente entrevista à SIC (24 de Março de 2018), deu como justificação. As razões são muito mais profundas, aliás a saída de António Gomes de Meneses da Presidência do Conselho de Administração do Grupo SATA aconteceu por divergências, do próprio, com o Governo Regional, e isso explicará muito do que errado (de parte a parte) foi feito pela tutela e pelo Conselho de Administração do Grupo SATA.
Foto by Aníbal C. Pires
O Plano de Negócios (2015/2020) já nasceu mal, isto para não dizer que foi um nado morto. Nada do que ali constava foi cumprido na sua totalidade e o pouco que foi, designadamente a aquisição do A 330, já voou para a Hi Fly.
A SATA não se precaveu nem se preparou para as alterações que, entretanto, decorreram nos últimos anos, designadamente, as alterações ao modelo de transportes aéreos para a Região e ao novo quadro de OSP. A entrada de Paulo Menezes para a Presidência do Grupo, confesso, trouxe-me algumas expetativas, mas foi Sol de pouca dura. Paulo Menezes foi vencido pelas disfunções organizacionais da SATA e pela tutela que já há muito deu conta de não saber o que fazer com a SATA. Ou então saberá, eu é que nem por isso.
A alienação de 49% do capital social da SATA Internacional/Azores Airlines está a decorrer sob um manto de incertezas, ilegalidades e a transparência do processo só é comparável à observação através de um vidro fosco. O concorrente que passou à segunda fase neste processo já veio dizer que o seu interesse pode ficar pelo caminho. Aguardemos.
A SATA ainda não apresentou uma explicação plausível para entrega, à Hi Fly, do A 330. Equipamentos que eram, para quem se lembra, o a menina dos olhos que refulgiam do Plano de Negócios. Não tive nada contra a opção, até porque tenho consciência que tendo em conta as limitações do Aeroporto de Ponta Delgada (também as tem) e as rotas para os Estados Unidos e para o Canadá, e havendo alguma conveniência em manter toda a frota oriunda do mesmo fabricante, não existe (ou existia) uma aeronave que satisfizesse todas as exigências de uma operação com estas caraterísticas.

Foto by Aníbal C. Pires
A aquisição de dois A 321 Neo e de dois A 321 Neo LR (Long Range), estes últimos só estarão disponíveis lá para 2019, se tudo correr bem. E foram estes equipamentos de voo que foram anunciados, o que significa, que as aeronaves adequadas para as ligações com os Estados Unidos (com exceção de Oakland) e com o Canadá ainda não chegaram. A operação para os Estados Unidos com os A 321 Neo, digamos que é mais uma daquelas opções que deixa muito a desejar. Mas então porque é que o A 330 foi cedido à Hi Fly, se faz falta pois, é a própria Hi Fly que vai assegurar a operação com o Canadá e com Oakland, isto para além de ser um dos velhinhos A 310, ainda ao serviço da SATA, que vais suprindo as necessidades, como recentemente se verificou quando o A 321 Neo ficou alguns dias em reparação devido a um problema técnico.
Nem o assunto se esgota, nem fiz uma elencagem exaustiva de tudo o que paira e influencia a política de transportes aéreos na Região e, muito menos esgotei tudo o que seria (será) importante dizer sobre o Grupo SATA. Voltarei ao assunto um destes dias, se for caso disso.
 Ponta Delgada, 29 de Abril de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 30 de Abril de 2018

Ahed Tamimi - a abrir Maio






Está encarcerada nas prisões sionistas. Presa e julgada pelo crime de se manifestar contra o ocupante do seu país e contra a violência do exército israelita sobre o seu povo.










Ahed Tamimi é uma daquelas mulheres bonitas como só o são as mulheres que lutam.










Neste Maio fica o destaque e o tributo a esta jovem mulher e ao povo palestiniano.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

... da coesão e da continuidade territorial

Foto by Aníbal C. Pires











Excerto de texto a publicar na imprensa regional e, também, no blogue momentos.








(...) Somos uma Região Autónoma portuguesa e face à União Europeia uma Região Ultraperiférica, assim, e desde logo, a política de transporte de passageiros, mas também de mercadorias, deve ser integrada no princípio da coesão e continuidade territorial, de onde decorre que os custos associados à mobilidade não podem ser ditados pelo mercado. Não beneficiamos de investimentos nacionais e comunitários que garantem a mobilidade e a circulação no espaço continental da União Europeia. A compensação é-nos devida e deve ter reflexos nos custos de transporte aéreo na e para a Região.
Qualquer modelo de transporte aéreo na e para a Região deve ser desenhado tendo como prioridade a mobilidade dos residentes e a satisfação das necessidades da economia regional, seja no plano do mercado interno, seja no plano das exportações e importações, onde incluo, necessariamente, o turismo. Ou seja, o modelo tem de ser compaginável com estes interesses, sob pena, se assim não for, de se constituir como fator de estrangulamento a um direito elementar que é o direito ao não isolamento e à mobilidade, mas também ao desenvolvimento regional. (...)

sábado, 28 de abril de 2018

Da inutilidade dos rankings - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires







Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 17 de Fevereiro de 2018 que pode ser ouvida aqui






Da inutilidade dos rankings

Por vezes não, outras vezes sim, outras vezes assim, assim. É o que anualmente resulta da leitura dos rankings das escolas. Vai tudo ao sabor da vaga que ora sobe, ora desce e, claro o discurso político do poder e de alguma oposição acompanha a maré. Umas vezes valoriza-se, outras desvaloriza-se.
Para si, não sei, quanto a mim não tenho a menor das dúvidas: os rankings das escolas são uma completa inutilidade para o sistema educativo. E, bem vistas as coisas, apenas servem como argumento para dirimir politicamente o suposto sucesso ou insucesso das políticas educativas, mas sobretudo e até agora a sua serventia tem apenas dado sustentação a uma campanha ideológica que visa denegrir o ensino público e enaltecer o ensino privado. Tudo, é claro, em nome do mercantilismo da educação. Como se a educação fosse um bem transacionável e não um direito constitucional.
Pergunta-me se considero que os sistemas, seja o educativo ou outro, não devem ser avaliados. Claro que devem, aliás só é possível introduzir alterações em resultado de processos de avaliação. Esse é o grande, diria único, objetivo da avaliação. Corrigir para melhorar. Seja a avaliação das aprendizagens, seja a avaliação de desempenhos profissionais, seja a avaliação organizacional e empresarial, seja a avaliação do sistema educativo.

Foto by Aníbal C. Pires
De um processo de avaliação resulta, ou devia resultar, informação relevante e objetiva que sustente mudanças, que corrija procedimentos, que altere percursos de aprendizagem, que identifique e reforme as variáveis que provocam disfunções nos sistemas, seja ele o sistema educativo, ou outro. Mas da suposta avaliação externa com que os rankings das escolas são apresentados à opinião pública, nada resulta. Nada resulta, nem poderia resultar pois não se trata de uma avaliação, mas tão só de mensurar um determinado momento e apenas uma variável.
A pertinência desta temática está relacionada com a recente divulgação dos rankings das escolas de 2017. Os resultados são os habituais, nada de novo, ou pelo menos nada de significativo para que a posição do Governo Regional não fosse a habitual, ou seja, a desvalorização deste indicador. Mas talvez porque os resultados das escolas açorianas observaram uma ligeira subida na tabela o Governo regional, embora de forma tímida, mas não inocente, lá publicou uma nota de satisfação pelo facto.
O assunto não mereceria sequer a minha atenção, nem o traria para esta conversa consigo, não fora o caso de as festividades estarem agendadas para a próxima semana durante o Plenário de Fevereiro da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.
E quem agendou a festa foi o PS utilizando a figura regimental de interpelação ao Governo. Festa que se prevê de autoelogio e adulação a si próprios e, às políticas educativas do seu governo, certamente, com particular ênfase ao afamado, mas mal-amado, programa ProSucesso.
Diria que vai ser lindo de ver e ouvir os deputados do PS branquearem tudo, o que em anos anteriores, afirmaram sobre os rankings para agora enaltecerem as políticas educativas regionais sustentando as suas afirmações na ligeira subida que se verificou, em 2017, nas escolas da Região. E assim se percebe a moderada posição do Governo aquando da divulgação dos rankings de 2107, bem assim como se entende que esse comedimento não era, de todo, inocente. A coisa merecia destaque parlamentar com o consequente show mediático.
A gargalhada parlamentar da oposição vai ser geral, embora alguma oposição esteja amarrada à defesa da importância dos rankings como elemento determinante da avaliação do sistema educativo, pelo que também se antevê interessante como será a abordagem para desconstruir o discurso de sucesso que o PS, certamente, irá fazer para sancionar as inovadoras políticas educativas do Governo regional cuja síntese é o tal ProSucesso.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de Fevereiro de 2018

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Opiniões asséticas, O que é isso.

Imagem retirada da Internet
As crónicas de opinião são, isso mesmo, a opinião de quem a escreve e partilha. Podem até estar, e estão geralmente, associadas à informação que o autor tem disponível sobre o tema sobre o qual opina e com a qual pretende, não só exprimir o que pensa, mas também influenciar a opinião de outros. Sendo legítimo não é, porém, um processo inócuo e muito menos imparcial, ainda que não se possa generalizar pois, alguns autores evitam a abordagem de temas da atualidade, ou mesmo de factos históricos sobre os quais existe um distanciamento que permite emitir opinião com maior rigor e objetividade. Mas, ainda assim, os leitores não devem, digo eu que também publico opinião, deixar-se embalar pela prosa elaborada que, muitas das vezes, vem embrulhada como se tratasse de um assunto anódino, mas que bem analisado pretende atingir um determinado objetivo. Cronistas independentes, Não conheço.
Isto tudo a propósito de uma, entre outras, crónica radiofónica que versava sobre o atual presidente francês e uma sua recente ida ao Parlamento Europeu. Emmanuel Macron discursou perante um plenário onde era visível a contestação de alguns deputados à sua presença. Não por ser presidente de França, mas por ter em conjunto com a Inglaterra e os Estados Unidos ordenado o bombardeamento de um país soberano, infringindo a Carta das Nações Unidas e o Direito Internacional. Mas voltemos à crónica radiofónica a que me referi. O seu conteúdo fazia um resumo do pensamento político de Macron, designadamente o seu afastamento de qualquer ideologia política, do percurso que o levou à presidência de França e o futuro que, segundo o cronista, lhe estará predestinado no porvir próximo da União Europeia. Para Sena Santos, o cronista que ouço nas manhãs da Antena 1, Macron é uma promessa, assim como o timoneiro que irá dar um novo rumo à União Europeia. Enfim, uma opinião respeitável como qualquer outra, mas discutível como o são todas as opiniões.
 
Imagem retirada da Internet
Sena Santos não dedicou uma só palavra ao envolvimento francês, a mando de Macron, na agressão à Síria, nem à forte contestação popular de que o presidente é alvo no seu país, nem ao repúdio que alguns deputados do Parlamento Europeu expressaram contra a sua presença. Assim, só posso concluir que Sena Santos mais não pretendeu, com esta crónica, do que limpar a imagem de Macron e projetá-lo como protagonista de uma nova geração de políticos europeus ideologicamente assépticos. Como se isso fosse possível, como se as decisões políticas e o pensamento que lhe subjaz e, suporta as decisões políticas não fosse intrinsecamente ideológico e servisse, neste caso, os interesses de uma escassa minoria de cidadãos que detêm o poder financeiro que Macron serve e, do qual Sena Santos, ao que parece, é mais um acrítico prosélito.
Sena Santos ainda vai dando uma no cravo e outra na ferradura, mas há por aí muitos outros cronistas de opinião que nem se dão ao trabalho de o fazer, e, sob a capa da opinião independente papagueiam velhas significações com os vocábulos dos tempos modernos. Novas palavras a mesma semântica.
Mais grave ainda são os conteúdos informativos que, não raras vezes, trazem uma opinião ou juízo associado. Prática que descredibiliza a profissão e coloca em causa a importância da comunicação social. Não faltam por aí exemplos, maus exemplos de jornalistas a quem o erário público paga chorudamente, mas que não se coíbem de na descrição da notícia, que se devia resumir aos factos, emitirem opinião e juízos.
Se os meus textos de opinião são imparciais, Claro que não, mas não são do lado dominante, são do lado esquerdo. Por isso, talvez por isso não falte por aí quem os abomine e até gostasse de me manter calado, como num destes dias verifiquei ao ler um comentário online, num dos meus textos de opinião, que dizia apenas, Cala-te. Ou seja, dizia tudo.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 24 de Abril de 2018

terça-feira, 24 de abril de 2018

... sem ideologia, mas ao seu serviço

Foto by Madalena Pires (2018)








Excerto de texto a ser publicado amanhã na comunicação social regional e neste blogue













(...) Mas voltemos à crónica radiofónica a que me referi. O seu conteúdo fazia um resumo do pensamento político de Macron, designadamente o seu afastamento de qualquer ideologia política, do percurso que o levou à presidência de França e o futuro que, segundo o cronista, lhe estará predestinado no porvir próximo da União Europeia. Para Sena Santos, o cronista que ouço nas manhãs da Antena 1, Macron é uma promessa, assim como o timoneiro que irá dar um novo rumo à União Europeia. Enfim, uma opinião respeitável como qualquer outra, mas discutível como o são todas as opiniões. (...)   

segunda-feira, 23 de abril de 2018

... do gosto pelos livros

Foto by Aníbal C. Pires (2018)
Hoje comemora-se o Dia Mundial do Livro, mas não vou fazer a apologia do livro, nem sequer sugerir este, ou aquele título como leitura. Essa escolha, assim como a opção entre ler ou não ler, é sua, como em tudo na vida.
Não tenho um livro nem um autor que prefira, aliás tenho sempre muita dificuldade quando me perguntam, De qual gostas mais. Seja a pergunta sobre música, literatura, gastronomia, países, cidades, cinema, ou o que quer que seja. O meu gosto não é dado a exclusividades, o que não significa que goste de tudo, Não, também não é assim. Sei do que gosto e porque gosto, mas não rejeito novas experiências, só conhecendo posso dizer se é, ou não do meu agrado.

Foto by Aníbal C. Pires (2018)
Neste dia dedicado ao Livro confesso publicamente, Ler é para mim um prazer, e como em tudo o que faço procuro prazer, Leio sempre que tenho um momento para me encantar na busca do prazer que as palavras reunidas num livro me podem proporcionar. É um prazer solitário, Dirá. E talvez assim seja. Mas nem por isso deixa de me saciar a vontade de conhecer, de viajar, de fazer parte de uma estória escrita num qualquer rincão deste planeta. E isso é bom, muito bom.
Ó meus deuses como é bom.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de Abril de 2018

Transportes aéreos III – Turismo e transporte aéreo

Foto by Aníbal C. Pires
(continuação)

Com este terceiro texto dou continuidade a esta reflexão sobre transportes aéreos nos e para os Açores, mas não se esgota aqui esta temática, nem estes textos pretendem mais do que dar conta de alguns aspetos que, na atualidade, dizem diretamente respeito ao transporte aéreo de passageiros nos Açores e de alguma forma podem influenciar ajustamentos ao atual modelo.
Hoje abordo algumas questões relacionadas com modelos de transporte aéreo, bem assim como a sua relação com os operadores turísticos regionais, nacionais e internacionais.
Nos últimos anos o destino turístico Açores cresceu visivelmente. Este crescimento fica a dever-se a um conjunto de fatores e não apenas à liberalização das rotas de S. Miguel e da Terceira, como em análises superficiais e de conveniência nos querem fazem crer.
O investimento regional na promoção do destino, a adequação da oferta à singularidade do destino, a instabilidade e a insegurança dos destinos da margem Sul da bacia do Mediterrâneo e do Médio Oriente, ao qual se junta, por fim, a liberalização das rotas já referidas, são os fatores que mais terão influenciado o crescimento do turismo nos Açores.

Foto by aníbal C. Pires
Ainda antes de 2015, ou seja, antes da liberalização das rotas de S. Miguel e da Terceira, o turismo nos Açores apresentava, em particular na ilha do Pico, indicadores de crescimento. Mesmo nos anos em que a crise foi mais sentida, o turismo nos Açores por razões diversas, as quais já referi e irei aprofundar mais adiante, conseguiu manter níveis aceitáveis de rentabilidade, ou mesmo de crescimento. Uma das principais razões que contribuíram para esta estabilidade no setor decorre de um artificialismo, alocação indireta de fundos públicos para garantir fluxos turísticos, desta opção decorre, em parte, o problema financeiro da SATA Internacional/Azores Airlines, pois a Região usou como instrumento desta estratégia o Grupo SATA. Os atuais problemas financeiros do Grupo SATA não se confinam a esta opção política, mas não deixa de ter alguma importância. Mas os fundos públicos foram igualmente alocados ao patrocínio de voos charters para a ilha de S. Miguel, com oferta de voo para outra ilha açoriana na SATA Air Açores. Tudo isto é do domínio público e todos nos habituámos a ver no aeroporto de Ponta Delgada, uma vez por semana, aeronaves de transportadoras aéreas europeias vindas de algumas cidades do Norte da Europa, em regime de voos charters. Existe, contudo, uma outra razão para que, mesmo nos anos negros da crise, os fluxos turísticos para os Açores, em particular para algumas ilhas, tivesse até aumentado. E essa não decorre de nenhum artificialismo, mas de uma estratégia promocional e da adequação da oferta às singulares caraterísticas do destino açoriano. Alojamento diferenciado e oferta de programas ligados à terra e ao mar, potenciando as condições naturais e ambientais. A ilha do Pico será o paradigma quer no que concerne à adequação da oferta de alojamento, quer ainda no que concerne à valorização do seu património natural e paisagem humanizada, mas o mergulho em Santa Maria e o “bird watching” na ilha do Corvo, são também dois bons exemplos e não são únicos.

Foto by Aníbal C. Pires
Mas tudo isto para evidenciar que os operadores turísticos e as transportadoras aéreas complementam-se. Os fluxos turísticos, apesar do paradigma se estar a alterar, dependem muito da dinâmica que os operadores turísticos regionais imprimirem à sua atividade e às parcerias que consigam estabelecer com as suas congéneres nacionais e internacionais. As transportadoras aéreas de baixo custo, as ligações regulares das companhias de bandeira e os voos charters são, digamos, instrumentais destes empreendimentos.
Um bom exemplo do que falo é a entrada da DELTA no mercado aéreo da Região que, como se sabe, causou alguma perplexidade e serviu, como é habitual, para acicatar bairrismos e como arma de arremesso político, embora ancorados em falsas premissas. A vinda da DELTA até pode ter constituído uma surpresa, e para mim foi, mas procurei saber porquê este súbito interesse da DELTA na rota Nova York/Ponta Delgada, por certo não seria pela procura dos açorianos, e claro que não é. A operação terá sido desenhada por operadores turísticos dos Estados Unidos, designadamente um operador ligado à DELTA, que pretende oferecer os Açores como um destino turístico que, por enquanto, está em alta e que tem tido procura por um segmento de cidadãos estado-unidenses. Se existe algum acordo financeiro entre a Associação de Turismo dos Açores (ATA) e os operadores turísticos dos Estados Unidos, desconheço, mas não estranho se ele existir.

Foto by aníbal C. Pires
Falta, ainda, a referência a dois fatores que contribuem para que o setor do turismo apresente taxas de crescimento que enchem de satisfação a generalidade dos cidadãos que veem no turismo a salvação da economia regional e a cura para todas as suas maleitas. A instabilidade e a insegurança de alguns dos tradicionais destinos turísticos e a liberalização das rotas para S. Miguel e Terceira. Quanto ao primeiro, parece-me uma evidência que, na escolha do destino de férias, a segurança seja decisiva, os Açores estão a beneficiar desse facto, não tenhamos dúvidas. Quanto à liberalização das rotas e à entrada de transportadoras aéreas de baixo custo no mercado, sem dúvida que, também, contribuíram para o aumento dos fluxos turísticos, embora seja importante verificar qual a taxa de ocupação/procura por cidadãos residentes e comparar com a taxa de ocupação/procura pelos forasteiros.
Todas estas questões, tal como outras que referi nos textos anteriores, devem ser devidamente tidas em conta, em particular para as “gateways” que não estão liberalizadas. Os voos charter ou soluções como o voo Terceira/Madrid talvez se adequem melhor às necessidades do setor turístico de algumas ilhas do que a liberalização de rotas, como já está a ser preparado para uma das “gateways” do triângulo. E que fique claro que estou a penas a referir-me à canalização de turistas para a Região, a mobilidade dos residentes será abordada no próximo texto.
(continua)
Ponta Delgada, 22 de Abril de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 23 de Abril de 2018

domingo, 22 de abril de 2018

... não é por acaso

Foto by Aníbal C. Pires








Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e também aqui neste blogue.








(...) Um bom exemplo do que falo é a entrada da DELTA no mercado aéreo da Região que, como se sabe, causou alguma perplexidade e serviu, como é habitual, para acicatar bairrismos e como arma de arremesso político, embora ancorados em falsas premissas. A vinda da DELTA até pode ter constituído uma surpresa, e para mim foi, mas procurei saber porquê este súbito interesse da DELTA na rota Nova York/Ponta Delgada, por certo não seria pela procura dos açorianos, e claro que não é. A operação terá sido desenhada por operadores turísticos dos Estados Unidos, designadamente um operador ligado à DELTA, que pretende oferecer os Açores como um destino turístico que, por enquanto, está em alta e que tem tido procura por um segmento de cidadãos estado-unidenses. Se existe algum acordo financeiro entre a Associação de Turismo dos Açores (ATA) e os operadores turísticos dos Estados Unidos, desconheço, mas não estranho se ele existir. (...)

sábado, 21 de abril de 2018

Outros carnavais - crónicas radiofónicas

Foto by Madalena Pires (S. Miguel, 2017)




Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 10 de Fevereiro de 2018 que pode ser ouvida aqui







Outros carnavais

Mais um Carnaval e eu por aqui com Veneza à minha espera, Sim Carnaval só se for em Veneza. Não, não.  O Brasil tem outros encantos para lá do Carnaval e eu prefiro a sedução de outros encantamentos. O Carnaval brasileiro não me atrai, talvez seja pela exiguidade dos trajes dos foliões, prefiro as insondáveis máscaras venezianas e a elaboração das indumentárias, ou seja, gosto de dar asas à imaginação. É muito, mas muito mais excitante.
Por cá Carnaval é na Terceira. Ok, ok, na Graciosa também e, para quem gosta de dançar num espaço confinado pela excessiva lotação, os bailes do Coliseu Micaelense podem constituir-se como uma boa alternativa.
Como não vou a Veneza nem sequer à Terceira ou à Graciosa, é a crise que se instalou e não há maneira de me deixar, e, como preciso de espaço para as minhas evoluções coreográficas, também não vou ao Coliseu Micaelense, vou ficar mesmo por casa onde com alguma imaginação e criatividade encontrarei forma de celebrar mais este Carnaval, ou se preferir, para assinalar mais este adeus à carne. Sim, o adeus à carne, esse é o significado de Carnaval.
Sem exageros, mas convém celebrar, pois, já a partir de 4.ª feira segue-se um longo período de abstinência.  Já não é bem o que era, mas ainda assim e para os devidos efeitos, os quarenta dias que se seguem ao Carnaval são, na tradição da igreja católica, de abstinência. Não, neste caso não é só para alguns, é mesmo para todos os que ainda seguem com rigor esta tradição católica. Tradição que respeito, mas não cumpro por razões diversas, mas que não vou partilhar consigo. E até nem é por si, mas por quem nos ouve e hoje, ainda que seja Carnaval e tudo, ou quase tudo seja desculpado, mas não quero ferir as almas mais sensíveis, nem entrar em conflito com os guardiões dos bons costumes.
Outros Carnavais se seguirão e, quiçá, haja oportunidade para, sem filtros, lhe revelar o que hoje fica por dizer-lhe.
Não insista. Sobre o período que medeia o Carnaval e a Páscoa não direi, nem mais uma palavra que seja.
E sobre o Carnaval pouco mais tenho para partilhar consigo.
É um tempo de libertação de alguns fantasmas que nos habitam e, cá por mim esse exercício de libertação é cultivado ao longo de todo o ano, ainda que a minha vida pessoal não seja um Carnaval, mas procuro que seja uma festa permanente, ainda que de forma recatada procuro celebrar a vida todos os dias e não apenas nos dias que o calendário assinala, ou que as tradições assim o ordenam.
Gosto de construir a minha própria agenda e de diluir a festa ao invés de a concentrar. Não é mau feitio, nem mania de ser diferente. Para mim trata-se apenas de uma questão de bom senso.
E como nada tenho para lhe ensinar sobre a forma como se deve divertir e ter prazer, só lhe posso desejar um excelente Carnaval e deixar o compromisso de que para a semana cá estarei, de novo consigo, com um assunto uma vez que a nossa conversa de hoje aborda um não assunto.
Bom Carnaval e haja saúde.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 10 de Fevereiro de 2018